Prevenção também se faz a brincar: “Este segredo é bom ou mau?”

Hoje 11:30 — Daniela Arruda

“Este segredo é bom ou mau?”. É a partir de perguntas como esta, de jogos, histórias, desenhos e situações do dia a dia que a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) ensina crianças de três ou quatro anos a reconhecer situações que as deixam desconfortáveis e a saber a quem pedir ajuda.Prevenção CARE é o nome do programa e é uma das respostas da APAV na área da prevenção da violência sexual contra crianças e jovens. A iniciativa está a ser implementada desde 2021 e é pensada para acompanhar todas as idades, dos três aos 18 anos, com temas adaptados à capacidade de compreensão de cada grupo.Na praia, o que é que a nossa roupa protege?No pré-escolar, por exemplo, a palavra “violência sexual” não é usada. O que a equipa faz é explorar conceitos que as crianças conseguem entender: o  nome das partes do corpo; reconhecer o que são zonas privadas; o que quer dizer “privado”; perceber se há toques que as fazem sentir bem ou mal; e os segredos que podem ser guardados e aqueles que devem ser sempre contados a um adulto de confiança.“Não é apenas dizer o queé certo ou errado, isso é demasiado abstrato para eles. As crianças conseguem identificar aquilo com que se sentem confortáveis ou desconfortáveis”, explica Carla Ferreira, diretora executiva adjunta da APAV e gestora da equipa APAV CARE.E é aí que entra a componente lúdica do programa: nas sessões podem haver fantoches, teatros, desenhos e jogos de movimento. A crianças pintam desenhos do corpo humano, aprendem, por exemplo, a distinguir as partes privadas das que não são, e a perceber o que  um biquíni ou uns calções estão a proteger na praia.Além disso, são dados exemplos práticos e próximos do dia a dia das crianças. Uma festa de aniversário surpresa pode servir para explicar a diferença entre um segredo “bom” e um segredo que não deve ser guardado. Nestas sessões, a criança aprende que um segredo que a faz ter medo, tristeza ou desconforto deve ser sempre partilhado com alguém da sua confiança.E essa pessoa de confiança não tem de ser a mãe ou o pai. Uma das atividades é exatamente sobre isso: ajudar a criança a identificar pessoas a quem pode recorrer, dentro e fora da família.Antes e depois: o que mudou nas crianças?Para perceber se estas atividades produzem efeitos concretos, foi feita uma avaliação científica do programa.O primeiro estudo foi só sobre o pré-escolar e comparou os conhecimentos e as competências das crianças antes e depois da participação nas sessões. A conclusão é que o programa tem resultados positivos: depois da intervenção, as crianças passaram a ter mais capacidade para distinguir, por exemplo, os segredos positivos de situações que não devem ser mantidas em segredo, bem como reconhecer os diferentes tipos de toque e identificar pessoas a quem podem pedir ajuda.Para a APAV, este reconhecimento é muito importante, pois vem dar sustentação científica a um programa que tem vindo a ser aplicado já há algum tempo.Quando entra a palavra “consentimento”?À medida que as crianças crescem, os conteúdos também são ajustados. No primeiro ciclo, a abordagem continua a ser muito prática e interativa; já a partir do segundo ciclo começa-se a explorar conceitos mais complexos, como a violência sexual e o consentimento. Só mais tarde é que se fala em relações de namoro, nos obstáculos à denúncia e nas dificuldades que podem levar uma vítima a não pedir ajuda.O programa foi desenhado para ser aplicado em sessões sucessivas. No pré-escolar são quatro sessões com as crianças, normalmente com intervalo de uma semana, mas antes há uma sessão com as famílias, para que aquilo que foi aprendido na escola possa também ser conversado em casa.Nos Açores, Carla Ferreira não sabe dar o número exato de sessões ou de escolas que já aderiram ao programa, mas ressalva que, nos últimos anos, foram dadas inúmeras ações de sensibilização a profissionais. E diz que o Programa de Prevenção CARE já foi abraçado por dezenas de escolas da Região.