Prestação Social Única promove suspeição sobre pessoas pobres
Hoje 17:14
— Lusa/AO Online
“Há aqui a necessidade de
reforçar políticas sociais, aumentando, obviamente, o controlo efetivo
para combater fraude e etc. Mas, acima de tudo, promovendo a dignidade
das pessoas pobres, e não permitindo um processo de culpabilização e de
suspeita ‘a priori’ sobre as populações mais desfavorecidas”, criticou o
docente no Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de
Lisboa (ISEG).Investigador nas áreas de
distribuição do rendimento, desigualdade, pobreza e políticas sociais,
Farinha Rodrigues falava à margem de uma mesa redonda no seminário
“Caminhos para uma Sociedade Livre de Pobreza”, da Rede Europeia
Anti-Pobreza (EAPN Portugal), criticando o “muito pouco” que se conhece,
para já, da prestação, que visa unificar 13 outras respostas já
existentes.“Não sei qual vai ser o valor
da prestação. Há aqui claramente aspetos que parecem apontar (…) para
uma menor abrangência, maior dificuldade no acesso à medida. Na minha
opinião, é preocupante, vai contra os objetivos da estratégia, contra o
Pilar Europeu dos Direitos Sociais e vai contra o próprio estudo da OCDE
sobre uma prestação social única”, lamentou.Farinha
Rodrigues esteve no grupo na génese da Estratégia Nacional de Combate à
Pobreza, a que se referiu durante a mesa redonda, e explicou depois que
no documento estão objetivos que permanecem “completamente válidos”,
mas também com “muito que falta cumprir”.“Continuamos
a ser uma sociedade profundamente desigual, com altos níveis de
pobreza. É necessária uma estratégia que dê consistência e coerência às
várias formas de intervenção do Estado e da sociedade civil no combate à
pobreza”, referiu.Considerando que um
“dos erros” é assumir “que é exclusivamente uma questão de prestações
sociais”, elencou a erradicação da pobreza em crianças como “o primeiro
passo”, para quebrar “a transmissão intergeracional de pobreza”.No dia 12 de junho, a proposta do Governo para a PSU baixou à especialidade sem votação na generalidade, Segundo
a proposta original, a Prestação Social Única (PSU) vai agregar 13
apoios que existem atualmente: o Rendimento Social de Inserção (RSI),
seis subsídios sociais de parentalidade (parental inicial, por risco
clínico durante a gravidez, interrupção da gravidez, riscos específicos,
adoção, e necessidade de deslocação a unidade hospitalar localizada
fora da ilha de residência da grávida), a pensão social de velhice, a
pensão social do regime especial de proteção na invalidez, o complemento
extraordinário de solidariedade, a pensão de viuvez, a pensão de
orfandade e o subsídio social de desemprego.Uma
das principais medidas é o condicionamento da atribuição da PSU à
disponibilidade do requerente ou membros do seu agregado em idade ativa
que não se encontrem a trabalhar para, salvo em situações excecionais
previstas na lei, prestar "atividades de solidariedade social" até um
máximo de 15 horas por semana.A mesa
redonda contou ainda com as perspetivas de Carlos Susias, presidente da
EAPN Europa, Juliana Wahlgren, do mesmo organismo, e Maria José Vicente,
pela EAPN Portugal.Vicente apontou a
necessidade das redes para evitar a fragmentação nas respostas,
reclamando “visibilidade, afirmação pública e ação” para enfrentar a
pobreza como um fenómeno que “não é inevitável, é produzido e
reproduzido, e por isso pode ser combatido”.Na
mesa, Carlos Farinha Rodrigues viu a Estratégia Nacional como uma
“oportunidade perdida”, por falta de vontade política, enquanto Carlos
Susias analisou o fenómeno em Espanha, onde oito mil entidades sociais
dialogam num território vasto com milhões de pessoas em situação de
exclusão social.Wahlgren, que reivindicou
para a erradicação da pobreza o contexto da “resistência” em momentos
políticos mais desfavoráveis, comentou ainda o peso da Inteligência
Artificial (IA) na definição e aplicação de respostas.“A
tecnologia não é neutra. As pessoas, alimentando algoritmos, vão também
alimentar estigmas e outras formas de preconceito. (…) Hoje falamos de
como a IA, no processo de digitalização dos serviços, virou ferramenta
de exclusão, criando pobreza digitalmente induzida. Quem merece ter
apoios sociais? Quem é considerado ou não de risco? Quem merece? A IA
está a criar uma nova categoria nas comunidades com quem trabalhamos”,
avisou.