Pressa de substituir petróleo e gás russos pode precipitar aquecimento global
Clima
21 de mar. de 2022, 16:08
— Lusa/AO Online
António
Guterres afirmou que a estratégia de “qualquer outra coisa” que está a
ser adotada pelas principais economias para acabar com as importações de
combustíveis fósseis da Rússia por causa da invasão da Ucrânia pode
matar as esperanças de manter o aquecimento global abaixo de níveis
perigosos.“Os países podem ficar tão
afetados pela falta imediata de combustíveis fósseis que negligenciam ou
menosprezam as políticas de redução do uso de combustíveis fósseis”,
disse, numa declaração divulgada através de vídeo, num evento organizado
pela revista The Economist. “Isto é loucura. A dependência de combustíveis fósseis é uma destruição mutuamente assegurada”, alertou.A
Alemanha, um dos maiores consumidores de energia russa, quer aumentar o
fornecimento de petróleo a partir do Golfo e acelerar a construção de
terminais para receber gás natural liquefeito.Nos
Estados Unidos, a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, disse, no início
deste mês, que a guerra na Ucrânia constitui uma razão para os
produtores norte-americanos de petróleo e gás “aumentarem a extração no
solo do próprio país”.Posicionando-se
contra este tipo de estratégia, Guterres lembrou que o momento atual
deve servir para “pisar no acelerador em direção a um futuro de energias
renováveis”.As declarações do
secretário-geral das Nações Unidas foram feitas numa altura em que os
cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU
iniciaram uma reunião de duas semanas para finalizar o último relatório
sobre os esforços mundiais para reduzir as emissões de gases com efeito
de estufa, que estão a aumentar a temperatura média do planeta.Um
relatório separado, divulgado no mês passado, revelou que metade da
humanidade já enfrenta sérios riscos devido às alterações climáticas e
refere que a situação vai piorar a cada décimo de grau de aumento do
calor.Segundo Guterres, a meta
estabelecida no acordo sobre o clima assinado em Paris - de limitar o
aquecimento global a 1,5 graus Celsius - está “ligada às máquinas de
suporte de vida” porque os países não estão a fazer o suficiente para
reduzir as emissões.Com temperaturas já
cerca de 1,2°C mais altas agora do que antes da industrialização, manter
a meta de Paris exige um corte de 45% nas emissões globais até 2030,
sublinhou.Mas após uma queda do aumento
constante da temperatura, no período mais crítico da pandemia de
covid-19, em 2020, quando uma grande parte do mundo estava “parada” e
confinada, as emissões voltaram a crescer acentuadamente no ano passado.“Se
continuarmos assim, podemos dizer adeus a [alcançar a meta de aumento
máximo da temperatura de] 1,5 graus”, avisou, lembrado que “mesmo 2ºC
podem estar já fora do alcance. E isso seria uma catástrofe”.Na
sua mensagem hoje divulgada, António Guterres instou as economias mais
desenvolvidas e as emergentes a fazerem cortes significativos de
emissões de gases, inclusive acabando rapidamente com a sua dependência
do carvão – o combustível fóssil mais poluente – e responsabilizando as
empresas privadas que continuam a apoiar o seu uso.