“Presos políticos” na “Guantánamo da América do Sul” não são terroristas
7 de fev. de 2023, 09:47
— Lusa/AO Online
No dia 08 de janeiro, milhares de
radicais, invadiram o Palácio do Planalto, os edifícios da Câmara dos
Deputados, do Senado e do Supremo Tribunal Federal (STF).Após
esse dia, vários militares foram exonerados pelo Governo de Lula da
Silva, assim como o chefe das Forças Armadas, o ex-ministro da Justiça
de Jair Bolsonaro permanece em prisão preventiva, dezenas de pessoas e
empresas têm contas bloqueadas por suspeitadas de patrocínio dos atos e o
STF está a investigar os graves acontecimentos como uma tentativa de
golpe e incluiu Bolsonaro nas investigações para esclarecer se ele
instigou os seus apoiantes a perpetrar os ataques contra as
instituições.A Lusa falou com duas pessoas
que no dia 08 de janeiro invadiram o coração da democracia do Brasil
que contaram que tanto elas como a maioria dos invasores que conhecem
não estão arrependidos.A um dia de se
completar um mês desde os ataques quase 1.000 pessoas permanecem nas
prisões de Brasília e 464 obtiveram liberdade provisória com aplicação
de medidas cautelares.“Alguém acredita que
alguns cadeirantes [pessoas de cadeira de rodas], um bocado de
velhinhas e uma turma desarmada ia conseguir derrubar um Estado com
mísseis, com tanques, e depor um Governo?”, disse à Lusa o deputado
federal e ex-vice líder do Governo de Jair Bolsonaro na Câmara, José
Medeiros. De acordo com a imprensa local, 68,1% das pessoas têm entre
40 e 60 anos e 36,8% têm entre 45 e 55 anos.“Os
direitos humanos ali estão sendo totalmente desconsiderados e nós temos
ali uma Guantánamo da América do Sul”, afirmou o deputado.José
Medeiros vai mais longe e considera que a Corte Internacional dos
Direitos humanos e instituições de direitos humanos deviam estar de
vigília nas prisões, porque, na sua opinião, estes brasileiros têm os
“seus direitos tolhidos, seus direitos civis violentados por nada”.Para
o deputado, estão a ser “imputados crimes que eles não cometeram”, já
que, apesar do “comportamento reprovável, “ali tem crime de invasão e
depredação de património público, não tem crime de golpismo, ou
terrorismo”.José Medeiros recorre ainda à
lei brasileira, que, no seu entender, diz que “primeiro tem de
identificar o crime e individualizar as condutas".“Portanto
alguém que estava apenas lá no gramado [relva] da Esplanada dos
Ministérios não cometeu crime algum”, justificou, acusando o STF de
querer fazer de exemplo estas pessoas e de querer criminalizar “um lado
da política brasileira para fortalecer e dar guarida ao atual Governo”.“Os
parlamentares que defendem o direito de se manifestar, a liberdade de
expressão, que defendem a lei brasileira, estão sendo todos
criminalizados”, afirmou, referindo-se às contas de redes sociais que
estão a ser suspensas por ordem do STF por terem incentivado e apoiado,
nas redes sociais, os "atos antidemocráticos" que resultaram nos ataques
às sedes dos três poderes.Para o deputado
do Partido Liberal estes ataques do dia 08 de janeiro são o resultado
de frustrações que vêm desde as manifestações de 2013, contra o então
Governo de Dilma Rousseff, que se agudizaram com a operação Lava Jato e
com a não condenação de Lula da Silva, num sentimento de “impunidade”.“Não
são bolsonaristas, são brasileiros que por acaso colocaram Bolsonaro
lá. São brasileiros que estão putos [furiosos] faz tempo”, considerou,
dizendo ainda que o Brasil caminha, para o esgotamento do “tecido
social”.À Lusa, um homem que participou
nos ataques aos três poderes e que não quis ser identificado afirmou não
estar arrependido das suas ações. “As pessoas que tive contacto a
maioria não se arrependeu”, disse, acrescentando que hoje segue a sua
“vida normalmente, um pouco fora da política”.O
homem disse ainda que não foi intimado pelas autoridades e que estava
dentro da região cercada pela polícia e conseguiu fugir sem ser
detetado.Ainda assim, disse mostrar-se
triste com o comportamento do exército e que esperada “uma reação
diferente”. Ou seja, esperava que se juntassem ao apelo e fizessem um
golpe militar.“Graças a deus não me
aconteceu nada”, disse à Lusa uma mulher que também não quis ser
identificada. “Tenho vários amigos que continuam presos”, contou.Esta
mulher, que desde o dia 30 de outubro, dia da vitória nas presidenciais
de Lula da Silva, encontrava-se acampada em frente ao quartel general
em Brasília a pedir uma intervenção militar garante que foi para a
Esplanada dos Ministérios no dia 08 de janeiro “com a intenção nem de
invadir nem quebrar nada”“Eu não fiz nada,
Mas arrependida não. Fiquei triste porque não era para ter sido daquele
jeito”, disse, considerando que “o desfecho foi bem frustrante”.Tanto
o homem como a mulher disseram à Lusa acreditar numa teoria da
conspiração que circula nos grupos bolsonaristas de que Lula da Silva
saberia do plano e facilitou tudo de modo a vitimizar-se e fazer crescer
o seu poder.“Caímos novamente no golpe da esquerda”, disse a mulher.