Presidente francês critica apoio internacional tímido
França/Atentados
16 de nov. de 2020, 13:37
— Lusa/AO Online
Numa
entrevista publicada pela revista digital Le Grand Continent, Emmanuel
Macron lembrou que "há cinco anos, quando foram mortos aqueles que
faziam caricaturas [no semanário Charlie Hebdo] o mundo inteiro marchou
em Paris e defendeu os seus direitos". "Agora,
tivemos um professor que foi degolado, várias pessoas degoladas. Muitas
condolências foram tímidas", sublinhou, numa referência ao professor
Samuel Paty, morto em 16 de outubro, e três pessoas mortas em Nice, no
dia 29. Dirigentes políticos e religiosos de uma parte do mundo muçulmano defenderam que bastava mudar o direito francês, disse Macron. "Isto
choca-me. Sou pelo respeito das culturas, das civilizações, mas não vou
mudar o meu direito porque choca outros lugares", sublinhou. Macron
referia-se aos apelos à manifestação lançados em vários países
muçulmanos, na sequência de declarações que proferiu, durante a
homenagem a Samuel Paty, a defender o direito à caricatura. "É
precisamente porque o ódio é proibido nos nossos valores europeus e a
dignidade da pessoa prevalece sobre o resto que eu posso chocar-vos,
porque podem chocar-me também. Podemos discutir e nunca faremos uso das
mãos por ser proibido e porque a dignidade humana é superior a tudo",
sublinhou. Aparentemente está a deixar-se
aceitar que "dirigentes, líderes religiosos, criem um sistema de
equivalência entre o que choca e uma representação e a morte de um homem
e factos terroristas", afirmou Macron."E nós estamos suficientemente intimidados para não ousar condenar isso", criticou. Para
o Presidente francês, a Europa não se deve intimidar por aqueles que
não respeitam a diferença. "É um falso processo e uma manipulação da
História", reagiu. "O combate da nossa
geração na Europa vai ser um combate pelas nossas liberdades. Porque
elas parecem estar a mudar", advertiu, numa entrevista concedida à
revista editada pelo Grupo de Estudos Geopolíticos, uma associação
independente. Sobre uma vacina para a
covid-19, Macron considerou que o acesso "seria um bom teste" para um
"novo multilateralismo" entre Estados e empresas, mas disse recear que
alguns países privilegiem apenas uma "diplomacia da vacina". "A
ideia do bem público mundial, de existir um acesso mundial à vacina
quer dizer que nenhum dos laboratórios que desenvolva a vacina bloqueará
o acesso a outros laboratórios (...) para os países em
desenvolvimento", declarou. A ONU lançou
um mecanismo que deve facilitar o acesso de todos às vacinas e
tratamentos, mas este programa, Act-A, ainda precisa de 28 mil milhões
de dólares (23,6 mil milhões de euros). Por
outro lado, Macron considerou que a eleição do novo Presidente
norte-americano, Joe Biden, é uma oportunidade para que os Estados
Unidos levem mais a sério a aliança transatlântica, e isso exige que a
UE avance na construção da própria autonomia."Os
Estados Unidos só nos respeitarão como aliados se formos sérios nos
nossos propósitos e se formos soberanos na nossa defesa", adiantou.A
mudança de inquilino na Casa Branca, a partir de janeiro, "é uma
oportunidade única para continuar de forma totalmente pacífica e
tranquila aquilo que os aliados devem entender entre si: continuar a
construir a autonomia" europeia, tal como fazem os Estados Unidos ou a
China, concluiu.