Presidente do TC alerta para “tentativas de pressionar os tribunais no sentido de decidir em certo sentido”
2 de mar. de 2023, 12:02
— Lusa/AO Online
Num
discurso na sessão de abertura da conferência internacional
comemorativa dos 40 anos do Tribunal Constitucional, João Caupers
salientou que, nos últimos tempos, se tem assistido “à intensificação da
exposição das jurisdições constitucionais à opinião pública”.Caupers
afirmou que “os casos mais relevantes pendentes nos tribunais
portugueses, incluindo o Tribunal Constitucional, são abundantemente
comentados, nos meios de comunicação e nas redes sociais, ainda antes de
serem conhecidos”, embora sem apontar situações concretas.Para
o presidente do Tribunal Constitucional, esses comentários são feitos
“por quem, pouco ou nada conhecendo das questões envolvidas -
frequentemente muito delicadas -, nem por isso se abstém de emitir
juízos precipitados e mal fundados”.“Se
umas vezes o desconhecimento é compreensível e demanda um esforço mais
intenso nos tribunais no sentido de explicar melhor os seus mecanismos
decisórios, outras vezes disfarça mal tentativas de pressionar os
tribunais no sentido de decidir em certo sentido”, alertou.João
Caupers considerou que “não parece possível reverter esta situação,
pelo que haverá que ponderar a melhor forma de lhe fazer face, sem
afetar a reserva da atividade jurisdicional e a tranquilidade
indispensável à ponderação judicial”.Este
aviso de João Caupers foi feito num discurso em que indicou que estão a
ocorrer “muitas mudanças” no mundo da justiça constitucional e no qual
se referiu à questão dos metadados.Entre
as várias mudanças que identificou, o presidente do Tribunal
Constitucional abordou designadamente o problema do “equilíbrio entre os
valores da liberdade e da segurança”, considerando que, depois de a
implantação da democracia ter tornado a “defesa das liberdades” no “bem
mais precioso”, está-se agora a assistir a uma alteração nessa
“hierarquia de valores”.João Caupers
salientou que “as transformações que o mundo conheceu nos últimos anos”,
designadamente devido a “fenómenos como a globalização e o terrorismo”,
fizeram acentuar “pulsões securitárias”.“O
valor da segurança foi ganhando peso, o medo - intensificado devido ao
impacto da pandemia de covid-19 - foi acentuando as pulsões
securitárias, incrementando restrições às liberdades até há pouco tidas
como inaceitáveis e agora consideradas inevitáveis”, vincou.Segundo
o presidente do Tribunal Constitucional, “não foi apenas a preocupação
com a segurança, no sentido mais estrito desta, que pôs em causa a
liberdade: somou-se-lhe a normalização da devassa da privacidade dos
cidadãos, também facilitada pelas medidas de combate à pandemia, sem a
qual não há liberdade que resista”.Neste
ponto, João Caupers referiu-se à chamada lei dos metadados, que está
atualmente a ser revista pelo parlamento, depois de, em abril de 2022, o
Tribunal Constitucional ter declarado algumas das suas normas
inconstitucionais.“A acumulação de dados
pessoais sobre os cidadãos, com alegado fundamento na defesa destes,
dramatizou o respetivo acesso, situação que se encontra refletida na
controvérsia que grassa na Europa e nas suas instituições sobre os
chamados metadados”, frisou.Caupers
referiu-se ainda a uma decisão recente do Tribunal Constitucional
alemão, que declarou inconstitucional a utilização, pelas forças
policiais e de segurança, de algoritmos preditivos, que possibilitavam
“o estabelecimento de perfis de possíveis culpados ainda antes de
qualquer crime ser cometido”.“Percebe-se
que um futuro ameaçador já nos bate à porta. Mas a decisão do
prestigiado tribunal também demonstra que se pode e deve lutar contra
ele. As jurisdições constitucionais e também o Tribunal de Justiça da
União Europeia (TJUE) terão, acredito, um relevante papel na resolução
deste grave problema”, disse. Caupers considerou assim que “o futuro das jurisdições constitucionais apresenta-se complexo, problemático e desafiador”.“Para lhe fazer face, estas irão ter de se reinventar. Saberão fazê-lo? Poderão fazê-lo? Quererão fazê-lo?” questionou.