Presidente do Supremo recusa ideia de que há crise na Justiça
Ano Judicial
6 de jan. de 2020, 16:23
— Lusa/AO Online
“No atual
contexto histórico posso afirmar, com convicção, que o sistema de
justiça português está equilibrado e funcional. É altura de pôr termo à
retórica da crise na justiça, às críticas vazias, às ideias feitas e à
deslegitimação, inconsciente ou consciente, do sistema de justiça”,
afirmou no seu discurso de abertura do ano judicial, que hoje decorreu
no Palácio da Ajuda.O juiz conselheiro
António Joaquim Piçarra afastou a ideia de que haja uma crise na
Justiça, classificando essa perceção como uma “retórica replicada de
forma acrítica e, por vezes, até perversa”.“Ao
contrário do que muitos repetem, até à exaustão, no espaço público, a
perceção que os cidadãos têm da justiça está alinhada com essa ideia de
equilíbrio funcional”, sublinhou.Contudo,
admitiu que o sistema judicial continua a ter “problemas muito sérios e
profundos”, concretamente nos processos especialmente complexos e na
“chamada justiça económica, particularmente as execuções civis e o
comércio”.A resolução de processos
especialmente complexos “constitui a equação mais difícil de resolver”
que afeta a imagem da justiça, sustentou, considerando que o sistema de
justiça português tem um problema estrutural na capacidade de responder a
esta realidade.“A criminalidade,
sobretudo a de natureza económico-financeira, vem associada a mecanismos
elaborados de ocultação, que implicam intervenção de diversas
jurisdições ou organismos, nem sempre com níveis de cooperação
adequados”, frisou.“Se o nosso sistema
legal e organizativo exige e impõe que estes processos complexos se
tornem edifícios faraónicos de factos e de provas, a sua conclusão
levará sempre vários anos”, afirmou o juiz, defendendo a seguir uma
alteração do quadro legal e o quadro funcional de apoio aos juízes.Será
sempre muito difícil compaginar nestes megaprocessos os vértices do
estado de direito democrático, como a descoberta da verdade, a
realização da justiça e o direito de defesa dos arguidos, enquanto o
sistema não tiver condições de lidar adequadamente com estas realidades.Genericamente,
Joaquim Piçarra destacou a diminuição das pendências em 2019, referindo
que o ano terminou com 310 mil processos pendentes, quando em dezembro
de 2018 eram 345 mil.Foram decididos nos
tribunais judiciais mais processos que os entrados transversalmente em
todas as jurisdições (cível, penal, laboral e tutelar).O
presidente do STJ, que por inerência de função é presidente do Conselho
Superior da Magistratura, prestou ainda contas da atividade do órgão de
gestão e disciplina dos juízes, revelando que em 2019 foram realizadas
369 ações inspetivas, instaurados 28 inquéritos e 21 processos
disciplinares e aplicadas sanções disciplinares a 21 magistrados: 10
advertências, seis multas, uma suspensão de funções com transferência,
duas aposentações compulsivas e uma demissão. No
seu discurso, o presidente do Supremo ressalvou ainda os recentes
desenvolvimentos políticos na Grã-Bretanha (Brexit) que tornaram
irreversível o processo de saída deste país da União Europeia, passando a
Irlanda a ser o único país de ‘common law’ na União e também o avolumar
de problemas de independência da justiça no espaço europeu.O
projeto europeu há muito que deixou de ser apenas económico. É um
projeto de desenvolvimento social e político, assente em princípios
democráticos comuns.A nova Comissão
Europeia parece seguir um caminho de ainda maior alheamento sobre esta
matéria, relativizando o conceito de independência da justiça de acordo
com as latitudes, o que não é tranquilizador.Em
contrapartida, assumiu perante o Presidente da República e a ministra
da Justiça, “Portugal continua a manter níveis de independência dos
juízes verdadeiramente referenciais no contexto internacional e que o
respeito do poder político pela independência da justiça mantém-se
intocado.Este ano, a cerimónia de abertura
do ano judicial decorreu no Palácio da Ajuda, em Lisboa, devido às
obras de beneficiação que decorrem no edifício do Supremo Tribunal de
Justiça.