Presidente da Conferência Episcopal alerta que não se pode pactuar com situações de abuso na Igreja
20 de abr. de 2023, 11:27
— Lusa/AO Online
Na homilia da missa em que a Igreja
pediu perdão “profundo, sincero e humilde” às vítimas de abuso no seu
seio, José Ornelas foi claro: “não se pode pactuar com situações e
atitudes que comprometam, deste modo, a vida de pessoas inocentes”.“A
‘tolerância zero’, de que fala o Papa Francisco, exprime esse
compromisso fundamental para com a vida e a justiça, em favor dos que
foram iniquamente delas privados”, afirmou o também bispo de
Leiria-Fátima.Recorrendo ao Evangelho de
hoje, que descreve “o olhar atento de Jesus que se dirige, antes de
mais, aos ‘pequeninos’”, José Ornelas disse, perante o episcopado e
muitos padres, que “quem é pequeno precisa desse olhar atento,
verdadeiro e carinhoso, como do pão para a boca, para crescer livre e
feliz”.“Este olhar, manifestado e ensinado
por Jesus, como base do relacionamento autenticamente humano, faz
entender a enormidade destruidora da violência e do abuso das crianças e
dos mais débeis, exatamente nos lugares onde era suposto estar patente a
atitude contrária que é fonte de vida, de liberdade e confiança”,
sublinhou o prelado, para quem é necessário que se entenda “a absoluta
necessidade de se colocar, antes de mais e acima de tudo, ao lado de
quem sofre esta devastadora realidade”.Defendendo
que “também aqueles que causaram estes males precisam de ser libertados
dessas atitudes que os despersonalizam”, o presidente da CEP,
acrescentando que “a busca de clareza e de justiça deve incluir os que
praticam o mal, pois a misericórdia de Deus é para todos”.“Hoje,
como bispos da Igreja em Portugal, queremos dizer àquelas e aqueles que
sofreram estes abusos, antes de mais, uma palavra de reiterado pedido
de perdão (…). Isso significa identificação e reconhecimento do mal que
vos foi imposto, de forma injusta e abusiva e no ambiente onde menos
deveria ter acontecido. Essa dor é também a nossa e continuará a doer
enquanto a vossa não for curada”, afirmou José Ornelas.Para
o bispo, esta é, no entanto, “uma dor que (…) acorda, (…) motiva e (…)
abre humildemente a ir ao vosso encontro, a escutar o que é incómodo, a
reconhecer a dor e a procurar partilhá-la e, na medida do possível,
aliviá-la e colaborar, por todos os meios, na libertação daqueles que
foram tão dramaticamente afetados.”“Gostaríamos
que, assim como experimentastes essas injustiças no seio da Igreja,
possais fazer a experiência de irmãos e irmãs que querem ajudar a sarar
feridas e a abrir caminhos de futuro. Foi com esse intento que
empreendemos este caminho que entra agora numa nova fase. Estamos a
criar condições para que esse encontro seguro e transformador seja
possível. É convosco, e na medida do vosso desejo, que queremos
empreender um caminho de reparação e de superação das dificuldades”,
assegurou Ornelas.O bispo garantiu, ainda,
que “a Igreja não pode voltar atrás neste caminho”, um “caminho para
além da dor, da justa revolta e da injustiça”.Nesta
eucaristia, em que participaram 32 bispos, a Oração Universal lembrou
também as “pessoas que foram vítimas de qualquer espécie de abusos, para
que encontrem em Cristo ressuscitado a cura das suas feridas e a
coragem para uma vida nova”, bem como os “familiares e amigos que
acompanham as vítimas de abusos, para que sejam uma presença de conforto
e de ambiente seguro, e ajudem na recuperação da dignidade humana”.