Presidente da CEP garante que o segredo da confissão “não vai mudar”
2 de mai. de 2023, 19:05
— Lusa/AO Online
“O segredo da
confissão não depende da Concordata. O segredo da confissão é tão
velhinho como a Igreja e não vai mudar. Isso posso garantir”, afirmou
José Ornelas na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos,
Liberdades e Garantias, onde foi ouvido a pedido do Chega e do PS.Depois
de salientar que o “segredo profissional é outra coisa”, o presidente
da CEP alegou que o segredo da confissão é algo que uma “pessoa pode ter
a certeza de que, contando e expondo a sua vida para encontrar luz e
perdão, isso não vai sair dali, porque senão baralhávamo-nos todos”.“Muitas
pessoas morreram por isso, outras tantas poderiam estar dispostas a
morrer, mas isso não vai mudar”, assegurou o também bispo de
Leiria-Fátima aos deputados.Na mesma
comissão parlamentar, numa audição anterior, o coordenador da Comissão
Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja
Católica, o pedopsiquiatra Pedro Strecht, realçou a importância da
revisão do segredo da confissão, notando que “está prevista, também,
noutras estruturas profissionais, incluindo a dos próprios médicos,
quando há questões que se sobrepõem”.Sobre
este assunto, o juiz conselheiro jubilado Laborinho Lúcio, antigo
ministro da Justiça, reconheceu a existência de “obstáculos enormes do
ponto de vista do Direito Canónico e, desde logo para já, neste momento,
através da própria Concordata”.“Nós
entendemos que sim neste aspeto [dos abusos sexuais], mas a questão aqui
é uma questão de decisão absolutamente interna da Igreja e da questão
que tem a ver com o dogma ou não”, referiu Laborinho Lúcio.O
antigo governante disse ser “estranho, todavia, que a razão que impõe o
segredo nos termos absolutos em que ele é imposto na confissão não seja
depois posto em confronto com o facto de a confissão servir também, em
muitos casos, para a prática dos abusos sexuais no próprio ato da
confissão”.Esta comissão
independente validou 512 dos 564 testemunhos recebidos, apontando, por
extrapolação, para um número mínimo de vítimas da ordem das 4.815.Vinte
e cinco casos foram reportados ao Ministério Público, que deram origem à
abertura de 15 inquéritos, dos quais nove foram já arquivados,
permanecendo seis em investigação.Estes testemunhos referem-se a casos ocorridos entre 1950 e 2022, período abrangido pelo trabalho da comissão.Já
em 26 de abril, foi apresentado o novo grupo de acompanhamento das
situações de abuso sexual de crianças e adultos vulneráveis no contexto
da Igreja Católica em Portugal, denominado Grupo VITA, liderado pela
psicóloga Rute Agulhas.