Presidente da Cáritas diz que medo pela segurança renasceu
Ucrânia
4 de jun. de 2025, 16:34
— Patrícia Cunha/Lusa/AO Online
“Há
enxames de drones a atacar os civis quase todas as noites”, descreveu a
responsável, em entrevista à Lusa, referindo que a Rússia costumava
enviar 300 ou 400 drones por mês e passou a atacar com mais de 4.000.“Ironicamente,
diria que o maior medo e preocupação que tive no início da invasão em
grande escala, que era com a segurança da nossa equipa e de toda a
Cáritas local, é uma das minhas maiores preocupações hoje”, admitiu
Tatiana Stawnychy.Por isso, apesar de
entender que as negociações que decorreram no dia 16 e na segunda-feira,
em Istambul, entre representantes de Moscovo e de Kiev tenham passado a
ser o foco das atenções internacionais, a presidente da Cáritas lembrou
que a Ucrânia ainda precisa de muita solidariedade.“Há
um apelo da Ucrânia em curso para que continuem a caminhar connosco,
para que vejam o que está a acontecer, não só politicamente, nas
discussões, mas também no terreno na Ucrânia, para que estejam
conscientes disso, para que ofereçam orações pelos ucranianos que sofrem
diariamente e, sempre que possível, para que se solidarizem connosco”,
pediu.A rede Cáritas faz “um apelo de
emergência para as atividades de resposta humanitária mais difíceis, e é
possível dar um contributo através da Cáritas Portugal”, acrescentou.O
trabalho mais difícil da organização decorre sobretudo na zona leste do
país, mais próxima da frente com a Rússia, onde tenta ajudar
principalmente “as pessoas muito vulneráveis, as crianças e as jovens
mães”.No leste, é preciso primeiro ajudar
as pessoas a saírem da zona e, depois, “ajudar os recém-desalojados a
reinstalarem-se em algum lugar”, adiantou a presidente da organização.Um objetivo que é especialmente difícil quando se trata dos mais idosos.“São
os últimos, os que ficaram mais tempo [na zona leste], porque são muito
apegados às suas casas, especialmente nas zonas rurais”, explicou.Noutras
partes do país, a assistência humanitária passa pelos centros de crise:
“tentamos que pessoas se adaptem à nova comunidade de acolhimento,
ajudando com apoio psicológico, com a documentação, a ter acesso a
cuidados de saúde, a instalar os filhos nas escolas”. E
também “a encontrar uma solução, pelo menos a médio prazo, para um
abrigo, uma casa onde possam viver”, passando ainda a reintegração dos
deslocados por tentar que voltem a trabalhar.“A
ideia é envolver as pessoas e ajudá-las a reerguerem-se e a sair da
crise”, sublinhou Tatiana Stawnychy, referindo que a Cáritas criou um
programa chamado ‘Programação de Meios de Subsistência’ para que todos
consigam encontrar empregos na comunidade local, começando pelo trabalho
comunitário.“Isto geralmente é
temporário”, mas depois permite que as pessoas consigam empregos em
empresas locais”, disse, adiantando que a taxa de retenção nas empresas
destes deslocados é grande.Por outro lado, a organização também incentiva o desenvolvimento de pequenos negócios.“Trabalhamos
com micro e pequenas empresas, com pessoas que talvez tivessem um
negócio na zona leste do país, de onde tiveram de fugir e perderam tudo.
Fazemos uma pequena formação de reciclagem e temos subsídios que
podemos oferecer às pessoas”, explicou.Subsídios que também abrangem a agricultura para permitir que as pessoas deslocadas tenham segurança alimentar, prosseguiu.Com
três anos de guerra decorridos, uma das partes mais importantes da
ajuda aos ucranianos é, sem dúvida, a psicológica, reconheceu a
responsável, com as questões de saúde mental no topo das preocupações da
sociedade civil e do Governo.“A
primeira-dama iniciou um programa em que falamos uns com os outros para
perguntar como estamos realmente e acho que este programa se vai
desenvolver muito”, disse.“Há muitas
pessoas com ansiedade e trauma generalizados por causa da guerra”,
referiu, admitindo que nas zonas da linha da frente, o problema é “mais
extremo”, mas “todas as regiões da Ucrânia são afetadas”. Embora
o apoio tenha um foco especial nos idosos, nas pessoas com necessidades
especiais e nas crianças de famílias vulneráveis, Tatiana Stawnychy
assegurou que o problema é abrangente e a crescer.“Eu
diria que o país inteiro está a lidar com um trauma coletivo”,
declarou, confirmando que questões como o alcoolismo e o uso de drogas
estão a aumentar.“Temos um centro de
reabilitação e tratamento de toxicodependência, que está muito ativo
neste momento, e penso que isso vai acontecer mais daqui para a frente,
com os veteranos a regressarem a casa”, indicou, esclarecendo
tratarem-se de mecanismos para enfrentar os traumas.Por isso, a Ucrânia está a apostar fortemente em formar psicólogos, anunciou.Na
Cáritas, existem 150 psicólogos na rede, “com os quais trabalhamos
constantemente para aumentar a capacidade e qualificação, para que
possamos dar resposta às necessidades presentes em cada uma das
comunidades”, referiu.Por outro lado, a
organização tenta também “reerguer as crianças”, que vivem, desde muito
cedo – ou desde sempre -, desestabilizadas por uma guerra.Uma
das formas de ajuda é através de “um programa chamado 'Espaços Amigos
dos Bebés', onde se tenta estabilizar crianças e pais nas comunidades
locais.“É como um centro comunitário onde
fazemos diferentes tipos de arte-terapia e ensinamos as tradições
locais”, descreveu. Aqui, também se tenta fomentar a interação entre
crianças e jovens locais “para que socializem, já que muitos só têm
aulas ‘online’ desde o início da covid-19”.“Há
uma grande necessidade de espaços onde as crianças se possam encontrar e
socializar, e também trabalhar na sua educação” porque “a educação
‘online’ não é tão forte como a presencial”, indicou, acrescentando
ainda que a organização aposta muito no reforço de competências de
diálogo.“Quando se está sob ataque, isso
destrói a compreensão das relações e a capacidade de diálogo, por isso, é
muito importante trabalhar no desenvolvimento de competências de
diálogo para nos compreendermos, para sermos capazes de nos ouvirmos e
compreendermos as experiências uns dos outros”, concluiu.