Presidente da Câmara de Setúbal pede silêncio sobre eventuais falhas na receção a refugiados
Ucrânia
5 de mai. de 2022, 11:02
— Lusa/AO Online
“Face
à comunicação que já hoje recebemos […] entendemos que a partir deste
momento, até à conclusão destas diligências, deveremos evitar voltar a
comentar publicamente este assunto”, disse André Martins no início da
sessão pública de câmara, que decorreu esta tarde.A
posição do presidente da Câmara de Setúbal foi anunciada na sequência
da decisão do Governo de ordenar uma investigação ao município
pela Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD) e uma sindicância a
realizar pela Inspeção-Geral de Finanças, face às denúncias de alegadas
irregularidades no acolhimento de refugiados ucranianos, que foram
recebidos na autarquia sadina por cidadãos de origem russa.Incrédulo
com o repto do presidente do município, o vereador do PSD Fernando
Negrão lembrou que o acolhimento de refugiados no município é uma
matéria que vai ser objeto de uma ampla discussão pública,
designadamente na Assembleia da República, e defendeu que a discussão
também deve ser feita na Câmara Municipal de Setúbal.Fernando
Negrão deixou um conjunto de perguntas ao presidente do município sobre
a associação de imigrantes que fez a receção de centenas de refugiados
ucranianos, sobre o conhecimento que a autarquia tinha dessa associação,
questionando também se a associação fotocopiou documentos e se estava
ligada a entidades estrangeiras, designadamente à Rússia.O
autarca do PSD perguntou igualmente por que razão a atual maioria CDU
não se apercebeu que “não fazia sentido cidadãos russos acolherem
cidadãos ucranianos, em tempo de guerra entre os dois países”, mas não
obteve respostas.À margem da sessão
pública de câmara, o vereador do PS Fernando José disse aos jornalistas
que a receção aos refugiados ucranianos “é uma grande trapalhada”, mas
reiterou que, por enquanto, não há motivos para exigir a demissão do
presidente do município sadino.“Neste
momento, e não havendo processos concluídos, cabe ao presidente da
autarquia responder se tem ou não tem condições para continuar neste
momento”, disse o autarca socialista, que também remeteu uma reavaliação
de todo o processo, por parte do PS, para depois de concluídas as
investigações hoje anunciadas.Confrontado
com a possibilidade de os eleitos sociais-democratas em Setúbal
renunciarem aos mandatos autárquicos, hipótese que está a ser ponderada,
mas não terá a concordância do vereador Fernando Negrão, Fernando José
admitiu que os eleitos socialistas ver-se-iam obrigados a seguir pelo
mesmo caminho.Caso todos os vereadores do
PSD concretizassem a sua renúncia ao mandato, explicou, “aquilo que iria
acontecer é que os vereadores do Partido Socialista iriam ficar
sozinhos com os vereadores do PCP […] e haveria uma inversão dos
resultados das últimas eleições autárquicas”, em que a CDU perdeu a
maioria absoluta, e uma “falta de representatividade” do executivo
camarário.“Se essa situação se vier a
concretizar, obviamente que os vereadores do PS, com a sua comissão
política, se irão reunir, nas 24 horas seguintes, para tomar uma decisão
que acho que é óbvia para todos os setubalenses”, salientou o autarca
socialista.O semanário Expresso noticiou
na sexta-feira que ucranianos foram recebidos na Câmara de Setúbal por
russos simpatizantes do regime de Vladimir Putin, que fotocopiaram
documentos dos refugiados da guerra iniciada em 24 de fevereiro com a
invasão militar russa da Ucrânia.Segundo o
jornal, pelo menos 160 refugiados ucranianos já teriam sido recebidos
pelo russo Igor Khashin, membro da Associação dos Emigrantes de Leste
(Edintsvo) e antigo presidente da Casa da Rússia e do Conselho de
Coordenação dos Compatriotas Russos, e pela mulher, Yulia Khashin,
funcionária do município.Ainda de acordo
com o Expresso, a Edintsvo foi subsidiada desde 2005 até março passado
pela Câmara de Setúbal, e Igor Kashin e Yulia Khashin terão também
questionado os refugiados sobre os familiares que ficaram na Ucrânia.