Presépio do Prior mantém tradição e recebe visitantes internacionais
24 de dez. de 2025, 18:00
— Filipe Torres
Com mais de um século de história, o Presépio do Prior Evaristo Carreiro
Gouveia é uma das mais emblemáticas tradições natalícias da Ribeira
Grande e um dos mais fortes símbolos da identidade cultural do concelho.
Criado em 1915, este presépio singular atravessou gerações, regimes
políticos e transformações sociais, mantendo-se como um ponto de
encontro na vivência ribeiragrandense, explica o historiador Mário Moura
ao Açoriano Oriental.Este ano, o Presépio do Prior volta a abrir
oficialmente ao público no dia 25 de dezembro, às 15 horas, numa
cerimónia de inauguração que terá lugar no Museu Municipal da Ribeira
Grande. A abertura marca mais uma etapa na longa história de um
presépio que, sem nunca perder a sua matriz tradicional, é hoje uma
referência cultural visitada por milhares de pessoas ao longo de todo o
ano.Começo do Presépio do PriorO Presépio do Prior da
Ribeira Grande nasceu em 1915, num tempo em que não havia televisão nem
rádio e em que as tradições religiosas e comunitárias assumiam um papel
central na vida local. A iniciativa partiu do então prior da Igreja da
Nossa Senhora da Estrela, na freguesia da Matriz, o padre Evaristo
Carreiro Gouveia, nomeado pároco poucos anos antes, por volta de 1911.Segundo
o historiador Mário Moura, foi sob a orientação deste sacerdote que o
presépio foi montado pela primeira vez na matriz da Ribeira Grande,
envolvendo ativamente a Juventude Católica, também fundada pelo próprio
Prior. As crianças da catequese eram responsáveis por inaugurar o
presépio na noite de Natal, logo após a Missa do Galo, num ritual que
rapidamente se enraizou na comunidade.Desde cedo, o presépio
destacou-se pelo seu carácter inovador. Tornou-se um presépio
movimentado e mecanizado, algo praticamente inédito na ilha de São
Miguel à época, o que contribuiu para atrair visitantes de todo o
concelho e mesmo de fora dele. Excursões organizadas incluíam
obrigatoriamente a visita ao presépio, que permanecia aberto desde o dia
25 de dezembro até ao Dia de Reis, e por vezes ainda mais além,
inserindo-se na quadra natalícia na Ribeira Grande.A importância do presépio no concelho da Ribeira GrandeAo
longo de décadas, o Presépio do Prior tornou-se um verdadeiro elemento
identitário da Ribeira Grande. “Quando se falava no presépio do Senhor
Prior, todos sabiam que era a Ribeira Grande e que era a Matriz”,
recorda Mário Moura.Para além da vertente religiosa e bíblica, o
presépio integrou desde cedo uma dimensão local muito marcada.
Representava edifícios emblemáticos do concelho, como o edifício da
Câmara Municipal, o antigo Jardim Municipal, o Teatro Ribeiragrandense
ou as Cavalhadas de São Pedro.Havia também uma componente social e
económica relevante. O historiador explica que algumas empresas locais
patrocinavam quadros do presépio, numa forma primitiva de publicidade,
numa altura em que o número de visitantes chegava a atingir as 20 mil
pessoas. Jovens aprendizes de várias profissões participavam na
construção das estruturas, enquanto as roupas das figuras eram
costuradas pelas mães ou namoradas. Muitas das figuras originais foram
produzidas por ceramistas da Lagoa, incluindo o afilhado do prior.Mesmo
durante períodos difíceis, como a década de 1970, marcada pela
emigração e pela Guerra do Ultramar, o presépio manteve-se como
referência cultural.O Presépio do Prior hoje: tradição internacionalizadaA
partir da década de 1980, o Presépio do Prior ganhou uma nova casa. Na
sequência de um protocolo entre a Igreja e a Câmara Municipal, passou a
estar instalado na antiga Casa da Cultura, hoje Museu Municipal da
Ribeira Grande. Atualmente, o presépio está montado de forma
permanente e pode ser visitado ao longo de todo o ano, uma
característica que o distingue de muitas outras representações
natalícias, explica o historiador. Embora continue a ser renovado na
quadra do Natal, com a introdução de novas figuras e cenários, já não é
desmontado, assumindo-se como uma obra de arte popular viva e em
constante transformação.Se outrora reinou sem concorrência, hoje
partilha atenções com outros espetáculos e meios de entretenimento,
realça. Ainda assim, mantém um lugar especial no concelho, reforça o
historiador. Para os naturais da Ribeira Grande, a visita ao Presépio do
Prior continua a integrar os rituais do Natal. Já para quem chega de
fora, sublinha Mário Moura, o presépio afirma-se hoje como um dos
principais pontos de interesse cultural e turístico do concelho,
visitado ao longo de todo o ano por públicos de várias origens.“O
presépio internacionalizou-se”, afirma Mário Moura. Portugueses,
espanhóis, ingleses, americanos e visitantes de muitas outras
nacionalidades passam pelo museu ao longo do ano, assim como membros da
diáspora açoriana que regressam à terra. Aberto 365 dias por ano, o
Presépio do Prior é hoje uma das obras mais visitadas da Ribeira Grande,
conclui.