Preço dos alimentos e pandemia podem inverter "alguma conquista" de Portugal no combate à obesidade
3 de mar. de 2023, 12:08
— Lusa/AO Online
Na véspera do Dia Mundial da
Obesidade, Alexandra Bento falou à Lusa sobre os impactos que o aumento
dos preços dos produtos alimentares pode ter nas refeições dos
portugueses e apelou para a adoção de medidas para dar à população
“possibilidades de se alimentar melhor”.Segundo
a Deco Proteste, uma cesta com 63 produtos alimentares essenciais pode
hoje custar 230,38 euros, mais 46,75 euros (25,46%) comparando com 23 de
fevereiro de 2022, véspera do início da guerra na Ucrânia.
Para Alexandra Bento, este aumento de preços somado com outras
circunstâncias, nomeadamente a pandemia de covid-19, pode inverter
“alguma conquista de Portugal” no controlo do excesso de peso e da
obesidade. “Se o preço é uma das questões
que determinam as escolhas alimentares, nós podemos especular com alguma
segurança que a população portuguesa estará a aumentar de peso”, disse,
sublinhando que o excesso de peso afeta sobretudo os mais vulneráveis a
nível económico e social, em várias dimensões.Como
se fala de “uma pobreza envergonhada”, disse, “aqui poderemos falar de
uma alimentação envergonhada, que se passa no interior da casa de cada
um, socorrendo-se dos alimentos menos corretos e de uma combinação de
alimentos que muitas vezes também não é correta”. A
Ordem do Nutricionistas propôs em outubro de 2022 ao parlamento que
isentasse do IVA alimentos considerados essenciais, como pão, fruta e
hortícolas, uma medida que segundo contas feitas pela ON pouparia às
famílias 394 euros por ano.Apesar de não
ser “a panaceia para resolver os problemas da obesidade”, Alexandra
Bento considerou que teria sido uma medida importante, “num período
especial”.“Acho que o repto que todos nós
deveremos lançar é que, se não é esta, que sejam outras iniciativas para
que possam pôr a população a ter possibilidades de se alimentar
melhor”, defendeu Alexandra Bento.Lembrou
que Portugal já avançou com a taxação dos refrigerantes, que “é uma das
boas medidas”, mas disse que são precisas mais medidas.“Nós
não podemos dizer que Portugal não está a fazer nada, mas é preciso
apressar o passo se queremos contrariar aquilo que nós imaginamos, que é
a subida da prevalência do excesso de peso e da obesidade”, vincou.Alexandra
Bento advertiu que, por muitas medidas que o país possa ter, se não
houver profissionais de saúde “em quantidade certa e nos locais certos”,
nomeadamente nutricionistas, dificilmente se conseguirá contrariar esta
questão.Questionada sobre quantos
nutricionistas existem no Serviço Nacional de Saúde, disse que são cerca
de 500, mas defendeu que é necessário avançar a “passos largos” para um
milhar para conseguir fazer face ao problema, além de serem necessários
também em “muitos outros lugares importantes”.A
bastonária da ON lembrou que a obesidade “pesa no bolso de cada um, mas
também pesa nos cofres do Estado e retira anos de vida saudável".A
bastonária alertou que os países da Região Europeia da Organização
Mundial de Saúde tinham “um compromisso de travar o crescimento do
excesso de peso e da obesidade e, porventura, nem Portugal nem os outros
países vão atingir este objetivo”.Ressalvou
que está a falar no domínio das hipóteses porque não há dados atuais em
relação ao peso da população portuguesa, sendo que os últimos dados de
2015 indicavam que cerca de 60% da população adulta portuguesa tinha
peso a mais.