"Precisamos de educação do berço até à cova” para combater desinformação
27 de abr. de 2023, 17:16
— Lusa
“Precisamos de uma
educação que começa no berço e acaba na cova. Não existe uma carta de
condução da literacia mediática. E mesmo que existisse, quando eu passei
no exame de condução não sabia conduzir, mas fiquei com um documento
que dizia que eu sabia conduzir”, afirmou o investigador universitário e
especialista em literacia mediática Vítor Tomé, na conferência “Confiar
no jornalismo, fugir à desinformação”, que decorre na sede da Lusa, em
Lisboa. Conforme reiterou, a personalidade
das pessoas está “relativamente criada” aos cinco anos, daí a
necessidade de começar a trabalhar a questão da educação “desde o
berço”.Para Vítor Tomé, é “essencial”
pensar sobre os vários temas, o que disse dar muito trabalho,
exemplificando que utilizamos o cérebro como um automóvel: “Não é
preciso saber de mecânica para conduzir”.O
investigador sublinhou ainda que para combater a desinformação (‘fake
news’) é necessário termos ao dispor mecanismos de verificação dos
factos e que impeçam que esta mesma desinformação seja disseminada.A isto soma-se a importância de ter legislação de combate a este problema. Presente
da mesma sessão, a ‘President & Global Media Literacy Educator’ do
Internacional Council for Media Literacy, Belinha de Abreu, considerou
que, hoje em dia, “o mundo está a receber demasiada informação”, não
tendo tempo para pensar se esta é ou não verdadeira.Assim,
vincou que a melhor arma é a educação, notando que também os pais têm
perceber o impacto que um telemóvel pode vir a ter na vida dos seus
filhos.“Vejo que não percebem que um
telemóvel nas mãos de uma criança tem um potencial muito grande e pode
modificar a forma como pensam […]. Os telemóveis mudam a forma como
vivemos a e própria atividade cerebral. Hoje, o telemóvel tornou-se
quase num amigo, numa pessoa que é oferecida pelos pais aos filhos. As
pessoas não falam umas com as outras e depois surgem também problemas
como a ansiedade ou depressão”, referiu. O
comandante Santos Fernandes, chefe da divisão de Planeamento do
Estado-Maior da Armada, notou, por sua vez, que “a indústria da
informação e da desinformação é uma arma”, que, cada vez mais, é
utilizada em termos da geopolítica internacional. Santos
Fernandes lembrou ainda que a segurança nacional, ao contrário “do que
se tem tendência para achar”, também está ligada a estas temáticas e
abrange já outras áreas além da “salvaguarda dos territórios e da vida”,
como a migração, a saúde pública e as mudanças climáticas.Os
próprios militares, segundo testemunhou, são vítimas e também emissores
da informação, apesar de terem sido treinados “para desconfiar de
tudo”.Na conferência, organizada pela
Agência Lusa, foi ainda exibido o documentário “Trust Me”, do
norte-americano Roko Belic, que aborda a desinformação na era digital,
com recurso a depoimentos de cientistas, governantes, psicólogos e
jornalistas.“Trust Me” alerta para a forma
como o público pode detetar a manipulação de fontes e informações,
filtrando o que é ou não factual, e assim evitar a proliferação de ‘fake
news’.