Poucos são os que circulam entre os concelhos da Ribeira Grande e Nordeste
3 de abr. de 2020, 18:58
— Inês Linhares Dias e Pedro Primo Figueiredo/Lusa
“Da
minha janela consigo ver um minimercado pequeno que tenho aqui em
frente a minha casa. Por acaso agora está aqui uma carrinha de
fornecedores, portanto, creio que o fornecimento está a decorrer
normalmente. De resto, veem-se muito poucas pessoas. Vê-se passar os
carros de lavradores e pouco mais”, conta Rui Medeiros, que vive na Vila
de Nordeste.Com quase cinco mil
habitantes, segundo os dados da PORDATA referentes a 2018, o concelho do
Nordeste é o menos povoado dos seis municípios da ilha de São Miguel -
todos os concelhos estão desde hoje em cerca sanitária decretada pelo
Governo dos Açores, sendo proibido, salvo exceções particulares,
circular entre eles.Na visita que a
agência Lusa fez hoje ao concelho, a única concentração de pessoas
verificava-se no posto de correios, estando a população idosa em maioria
clara entre os que esperavam acesso ao espaço.O
concelho não é dotado de um hipermercado, fazendo os locais as suas
compras em pequenas superfícies comerciais - com a cerca montada desde
hoje é proibido atravessar para os concelhos vizinhos e ir à Ribeira
Grande, por exemplo, fazer compras.O
concelho nordestino faz fronteira a sul com a Povoação e a oeste com a
Ribeira Grande. Por ser o mais distante de Ponta Delgada, chegou a ser
apelidado de “décima ilha dos Açores”, antes da construção da via rápida
sem custos para o utilizador (SCUT) ter facilitado o acesso ao
município, que compreende 13 freguesias.Volta
agora a estar isolado, como todos os seis municípios da ilha de São
Miguel, depois de ter sido decretada, esta quinta-feira, uma cerca
sanitária que limita a circulação entre concelhos a profissionais de
saúde, jornalistas em funções, ao abastecimento de bens essenciais à
população da ilha e à manutenção da atividade de setores tidos por
fundamentais, como a pecuária ou as pescas.Rui
Medeiros concorda “plenamente” com a medida e considera que, “se
calhar, já devia ter sido tomada há mais tempo, uma vez que já se está a
espalhar”.O munícipe não acredita que o isolamento “venha dificultar, porque tudo estava fechado”.“Desde
que o abastecimento ao concelho seja feito, não vejo como possa
dificultar, uma vez que já estávamos em plano de contingência”,
prossegue.Lúcia Silva também concorda com a
medida decretada pelo Governo Regional: “Se isso protege a gente para
não acontecer nada, pronto, quando isto melhorar a gente há-de sair para
ir dar as voltas que dávamos antes”.A
moradora da freguesia da Achada só sai de casa para “trabalhar, ir ao
supermercado, no Nordeste, e pagar as contas, que agora são pagas por
multibanco”.“Pena é que a gente quer luvas, quer álcool e tudo e nas lojas aqui em cima não há nada. É um caso muito sério”, lamentou.Trabalhava
num alojamento e presta apoio a uma idosa, mas o alojamento fechou, por
isso, agora só presta auxílio a uma senhora de 93 anos.“Ela
não está preocupada e eu também não ‘tou’. O que for para a gente, é
para a gente, não é para mais ninguém. Há-de ser o que Deus quiser”,
afirmou a cuidadora, garantindo, no entanto, que “protege-se da maneira
que pode”.No primeiro dia de cerca
sanitária, o cenário na Achada é o mesmo dos últimos dias: “Eu vejo aqui
tudo mais ou menos na mesma. Quem sai são os lavradores e as pessoas
para ‘terminar’ a sua vida. O resto é em casa”, afirmou.Em
torno da Ribeira Grande, segundo maior concelho de São Miguel, são
vários os agentes de segurança a bloquear acessos, e ao começo da tarde
era pouco o tráfego local, ao contrário do verificado de manhã nas
ligações entre Ponta Delgada e os concelhos adjacentes.