Portuguesa conta que população oscila entre alegria e apreensão perante novo regime
Síria
11 de dez. de 2024, 15:55
— Lusa/AO Online
A
religiosa, que no dia em que caiu o regime do ex-presidente Bashar
al-Assad, comparou o momento com o 25 de Abril português, por não ter
havido derramamento de sangue, contou que, nos últimos três dias – desde
a queda do regime –, ouve sobretudo conversas de “alegria e esperança” e
que ainda se sente “um bocadinho de euforia” no ar.“A
atitude deles tem sido de tranquilizar toda a gente”, afirmou em
entrevista à Lusa, referindo-se à coligação de grupos da oposição a
Bashar al-Assad que derrubou o regime e assumiu o poder ‘de facto’ na
Síria.A operação começou a 27 de novembro e
foi liderada pela Organização de Libertação do Levante (Hayat Tahrir al
Sham - HTS, em árabe), herdeira da antiga afiliada síria da Al-Qaida e
classificada como grupo terrorista por países como os Estados Unidos, o
Reino Unido, o Canadá e ainda a União Europeia.Mohammed al-Bashir, braço direito do líder da HTS, assumiu o cargo de
primeiro-ministro interino, responsável pela transição na Síria até 01
de março de 2025. “Eles têm dito ‘estamos
convosco’ e ‘vai ser um governo para todos’ e perguntam ‘o que é que
vocês precisam?’, mas as minorias, nomeadamente os cristãos, ainda
sentem uma grande apreensão”, avançou Maria Lúcia Ferreira, que vive num
mosteiro na vila de Qara, perto da fronteira com o Líbano.“Por
agora não tem havido sinais de radicalismo, mas uma vez que o governo
esteja formado, a ver vamos”, considerou, sublinhando que “a memória
está bem viva”.Embora a Síria tenha uma
comunidade cristã histórica, esta minoria foi uma das mais perseguidas
durante a guerra, que durou 13 anos, e constitui uma grande parte dos
mais de sete milhões de deslocados internos do país.Reconhecendo
que o facto de viver num mosteiro não proporciona muita informação
sobre os refugiados da guerra, Maria Lúcia Ferreira contou que “muitos
daqueles que saíram das suas casas com medo quando viram o avanço dos
rebeldes, já voltaram porque houve a atitude de tranquilizar e não se
fizeram massacres nenhuns”, o mesmo acontecendo a muitos dos rebeldes
que estavam no Líbano.A alegria “até de
ver os mercados abertos e a economia a melhorar um bocadinho” mantém-se,
mas, admitiu a religiosa ligada à Fundação AIS Portugal, a expectativa
de todos vai crescendo à medida que vão sendo anunciadas as escolhas
para ministros do novo governo interino.“Eles
são islamistas. Vê-se pelos ministros que sugeriram para o governo”,
alertou a portuguesa, admitindo que “alguns são seculares”.Por outro lado, insistiu, “há alguma desordem”.“As
crianças no início ainda foram à escola, mas pelo menos agora, não
estão a ir” e “há pessoas que se aproveitam [da situação] para roubar”,
relatou.A religiosa portuguesa alertou
ainda que a desordem ainda pode agravar-se já que muitos “conseguiram ir
às casernas do exército e ‘apanhar’ armas” e “há relatos de episódios
em que essas armas foram usadas por tribos árabes para, por exemplo,
roubar gás”.Além disso, acrescentou,
alguma informação é escassa e ainda difícil de comprovar. É o caso do
destino daqueles que faziam parte do regime de Bashar al-Assad.“Aqueles que não se renderam e que são encontrados são executados”, afirmou, admitindo que “foi o que soube”.Por outro lado, Maria Lúcia Ferreira garantiu que Israel tem atacado a Síria.“Vimos
aqui ao vivo. Durante dois dias, especialmente de noite, os aviões iam e
vinham a bombardear as reservas de armas do governo sírio”, adiantou,
explicando que foram duas noites “muito difíceis” porque “nunca se sabe
se se aproximam de nós”.Numa entrevista à
estação televisiva do Qatar Al-Jazeera, o novo primeiro-ministro sírio
defendeu a necessidade de estabilidade e proteção no país.“Chegou
o momento de este povo usufruir de estabilidade e de calma, de ser
cuidado e de saber que o seu governo está aqui para lhe prestar os
serviços de que necessita”, afirmou Mohammed al-Bashir.