Português promove ações de solidariedade para retribuir acolhimento aos imigrantes
Venezuela
26 de abr. de 2021, 11:52
— Lusa/AO Online
Sem apoio
estatal, mas contando com “o bom coração” de pessoas que o ajudam desde o
estrangeiro, através da plataforma ‘GoFundMe’, há um ano que constrói
uma cantina para atender gratuitamente a uma centena de crianças em
Cáugua, no estado venezuelano de Arágua (100 quilómetros a oeste de
Caracas).“Este projeto [distribuição de
comida] começou há quatro anos, quanto estive em Portugal, trabalhando
num restaurante. Ao ver tanta comida que deitavam no lixo, prometi-me
que quando regressasse à Venezuela ajudaria as pessoas”, disse Ricardo
Martins.O português falava à Lusa, em
Turmero (estado de Arágua), onde distribui comida a crianças e anciões,
na cantina do Santuário de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.“Eu
já tenho quatro anos fazendo isto. Começámos preparando comida e a
dando às pessoas na rua, pouco a pouco cada vez mais pessoas me ajudam e
isto tem ido crescendo. Entregamos quase 300 comidas às sextas-feiras,
mas durante a semana ajudamos muitas pessoas com medicamentos,
operações, cadeiras de rodas”, contou.Natural
de Lisboa e emigrado há 41 anos na Venezuela, Martins explicou que na
rede social Instagram (ricardo.martins58) é possível ver algumas das
ações que realiza. Também recebe apoio de cidadãos dos Estados Unidos da
América (EUA) e alguns da Europa, mas salientou que através da
‘GoFundMe’, podem ajudar “de qualquer parte do mundo”.“Há
milhares de pessoas que precisam de ajuda. A mim me escrevem
diariamente, pedindo ajuda, muitas vezes em medicamentos que trazemos da
Europa e dos EUA. Às pessoas que precisam e têm a receita [médica], nós
entregamos os medicamentos”, acrescentou.A
sul de Turmero, em Cáugua, do outro lado da autoestrada, Ricardo
Martins referiu que decorrem as obras do seu novo sonho, “conseguir
construir uma cantina para crianças de baixos recursos na Venezuela”.“Isto
será uma cantina infantil. Começaremos com 100 garotos [crianças].
Vamos ter serviço médico e odontológico. Não haverá que pagar nada e é
para todas as pessoas que precisem. Isto, é um sonho. Isto era uma casa
velha onde já trabalhamos há um ano, com a ajuda das pessoas de bom
coração e a ajuda de Deus também”, adiantou.Por
outro lado, declarou que “há muitos portugueses passando dificuldades
na Venezuela”, mas que desde que começou com as ações de apoio apenas
ajudou dois compatriotas, um homem e uma mulher.“O
Governo português deveria ajudar-me, porque a Venezuela deu tanto aos
nossos pais, aos nossos avós, irmãos e amigos. Eu acho que este é o
momento para ajudar a Venezuela, aos venezuelanos que nos deram tanto. É
a melhor forma de retribuir o nosso agradecimento ao povo venezuelano e
a este bonito país que nos tem dado tanto”, desabafou.Ricardo
Martins dedica 18 das 24 horas de cada dia às ações de solidariedade,
mas, tal como muitas pessoas que fugiram da crise que afeta o país,
tentou sorte em Portugal (há pouco mais de quatro anos) e nos Estados
Unidos.“Tive que sair, como muitos
venezuelanos, a trabalhar noutros países para manter a minha casa e
também ajudar a fazer isto. Muitos amigos perguntam-me porque não fico
lá fora [no estrangeiro], mas o que sinto pela Venezuela é amor e sempre
quero voltar, estar aqui, que isto seja um país cada vez melhor”,
disse.Questionado sobre se já tinha
recebido ajuda do Governo venezuelano Martins respondeu que “não”, mas
que também nunca pediu, justificando: “O meu trabalho é mais com pessoas
do que com o Governo, são as pessoas que me ajudam a continuar com
isto”.