Portugal tem 3% do pescado com certificação sustentável mas sardinha pode dar "empurrão"
28 de nov. de 2024, 11:51
— Lusa/AO Online
A
conclusão é do MSC – Marine Stewardship Council, uma organização
internacional sem fins lucrativos, presente em Portugal, que distingue
os esforços das frotas em proteger os oceanos e a vida marinha,
atribuindo um “selo azul” que é colocado nos produtos capturados de
forma sustentável. “Em Portugal temos 445
produtos com o selo azul e 72 empresas com certificação ativa [da cadeia
de custódia do MSC]. No entanto, isto representa só 3% do total do
pescado consumido em Portugal”, ou seja, mais de 16.000 toneladas,
revelou o diretor ibérico do MSC, Alberto Martín, em entrevista à Lusa.
A certificação da cadeia de custódia
permite às empresas manipular e comercializar pescado certificado. Já a
certificação da pescaria é o padrão do MSC mais difícil de alcançar, uma
vez que só o processo de auditoria demora cerca de um ano. O
processo, que é conduzido por um auditor externo, avalia quase 30
indicadores, divididos em três grupos – o primeiro tem em conta, por
exemplo, se o estado da espécie é bom e o segundo se a pescaria tem
impactos ambientais significativos e irreversíveis, enquanto o terceiro
avalia a governança. Se cumprirem estes
requisitos, as empresas recebem a certificação. Contudo, esta tem cinco
anos de “validade” e, anualmente, os auditores vão atestar os progressos
da pescaria em causa.Alberto Martín disse que 90% das pescarias que conseguem uma certificação têm, ainda assim, de fazer algumas melhorias.Se
as pescarias apresentam atraso de um ano na implementação dessas mesmas
melhorias podem continuar com a certificação, mas se o atraso for de
dois anos aplica-se uma suspensão. “Passados
cinco anos têm de começar o processo outra vez. As pescarias não são
estáticas, podem mudar ao longo do tempo. Com fenómenos como as
alterações climáticas, que estão a provocar impactos ao longo do tempo,
[as pescarias] podem ter diferentes cenários que mudam os seus
parâmetros”, explicou. No mercado português, as espécies certificadas mais representativas são o bacalhau, a pescada, o paloco, o atum e o salmão. Por
sua vez, o ‘senior program development do MSC para Portugal’, Rodrigo
Sengo, destacou que “ainda há muito a fazer” em relação a espécies como o
bacalhau, dada a tradição de consumo no país. Já
o atum de conserva “não é fácil de trabalhar”, uma vez que, apesar de
existir disponibilidade da matéria-prima, a sua integração nos mercados é
desafiante. Apesar de representar 3% do
pescado consumido em Portugal, o selo azul do MSC está a crescer neste
mercado e pode ser impulsionado pela sardinha, quando esta espécie
recuperar a sua certificação. Porém, até
ao próximo verão, quando a sardinha deverá ter concluído parte do
processo, é cedo para fazer projeções sobre o crescimento desta
percentagem uma vez que ainda não estará disponível uma “fotografia
clara” do que pode acontecer.No período
2023/24 foram exportados 237 produtos com o selo azul, sobretudo para “o
mercado da saudade” – Luxemburgo, França, Alemanha e também Brasil-,
representaram 57.000 toneladas e geraram 45 milhões de euros. Em média, cada português consome, anualmente, 55 quilogramas de pescado. De
acordo com um estudo do MSC, que entrevistou 27.000 pessoas em todo o
mundo, em Portugal, 75% dos entrevistados defendem a necessidade de
mudar para fontes mais sustentáveis. Em 2024, 46% dos consumidores portugueses reconhecem o selo azul do MSC, quando, em 2020, esta percentagem estava em 41%. Para
sensibilizar os cidadãos para a importância da captura sustentável para
garantir a disponibilidade de pescado para as gerações futuras, o MSC
promove iniciativas como a semana Mar Para Sempre, que este ano contou
com a presença do ex-futebolista e atual armador Fábio Coentrão.