Portugal receberá 15,3 mil ME do Fundo de Recuperação
UE/Cimeira
20 de jul. de 2020, 17:12
— Lusa/AO Online
“Acho
que o acordo alcançado é um bom acordo, ficou no limite daquilo que
faria que com que este fundo não fosse um fundo suficientemente robusto
para responder a esta primeira fase da crise. E, na combinação entre
empréstimos e subvenções, acho que ficaremos com um fundo que terá 700
mil milhões de euros. É de qualquer forma um passo histórico ser
constituído um fundo desta natureza com base na emissão de dívida pela
Comissão”, afirmou António Costa.O
primeiro-ministro, que falava em Bruxelas antes do início formal do
quarto dia de Conselho Europeu dedicado ao plano de relançamento da
economia europeia face à crise da covid-19, salientou que “algo que é
importante é que, nesta redução significativa do montante global do
Fundo”, a nível de transferências a fundo perdido, na ordem dos 20%,
“foi possível no essencial proteger aquilo que eram os envelopes
nacionais”. “E, portanto, salvo alguma
peripécia na tarde de hoje, aquilo com que podemos contar relativamente
ao Fundo de Recuperação, no que respeita a Portugal, nas suas diferentes
dimensões, é com uma verba de 15,3 mil milhões de euros, que tem
execução prevista entre janeiro de 2021 e 2026”, indicou.Assumindo
que esta é “uma verba que impõe enorme responsabilidade” e dá uma
“oportunidade muito significativa ao país para responder com energia à
crise económica muito profunda”, dando-lhe uma “capacidade de resposta”
que de outra forma Portugal, não teria, António Costa explicou que o
país ‘perdeu’ agora no Fundo face à diminuição do seu montante será
‘compensado’ no orçamento da União para 2021-2027, a ‘maratona’ negocial
que se segue.Explicando que, da proposta
inicial da Comissão, de um Fundo de 750 mil milhões de euros, com 500
mil milhões a serem desembolsados na forma de subvenções [transferências
a fundo perdido], passou-se para um Fundo de 700 mil milhões com
‘apenas’ 390 mil milhões de euros em transferências (um corte de 110 mil
milhões, aproximadamente 20%), Costa apontou que os envelopes nacionais
acabaram por ser apenas “marginalmente” atingidos.“O
pacote financiava um conjunto de programas, uns que têm dimensão
nacional, outros que têm gestão centralizada, pela Comissão”, tendo os
cortes incidido sobretudo nestes últimos, “por isso atingiram só
marginalmente os programas nacionais”.“No
nosso caso concreto, há uma diferença de cerca de 400 milhões de euros
entre aquilo que era a versão inicial e a versão atual. Esses 400
milhões de euros, diga-se de passagem, temos mecanismos de compensação,
não agora aqui no «Next Generation» [o Fundo de Recuperação], mas no
Quadro Financeiro Plurianual”, indicou.Por
outro lado, acrescentou, como houve uma redução dos descontos, e
Portugal também paga esses ‘rebates’, a contribuição será menor, “pelo
que a diferença líquida será não de 400 milhões de euros, mas 230
milhões de euros”, montante esse que será então compensado de forma
própria no orçamento da União para os próximos sete anos.Reportando-se
à longa maratona negocial sobre a arquitetura e montantes do Fundo, que
entrou pela última madrugada dentro, António Costa observou que a
redução das subvenções de 500 mil milhões para 390 mil milhões foi “o
compromisso possível” para que houvesse este Fundo financiado com
emissão de dívida. De acordo com o primeiro-ministro, este foi “o preço que foi pago” para obter algo que, ainda assim, insistiu, “é histórico”.“Foi
um montante que aceite pela Comissão Europeia, que a senhora
[Christine] Lagarde [presidente do Banco Central Europeu] avaliou como
estando naquilo que era ainda a função macroeconómica que este fundo
deve poder desempenhar, e relativamente aos Estados foi possível
assegurar no essencial a proteção daquilo que eram os seus envelopes
nacionais”, disse.Para António Costa, não
se ter chegado a um compromisso é que teria sido “uma enorme derrota
para toda a Europa”, sendo que, revelou, “houve vários momentos em que
isso esteve para acontecer”, mas “felizmente houve sempre a capacidade
de ultrapassar esses problemas”, tendo então sido possível chegar a “um
acordo geral” cerca das 06:00 da madrugada.Relativamente
ao chamado “travão de emergência” introduzido na governação do fundo –
para dar resposta a uma das exigências da Holanda, que reclamava que o
Conselho pudesse bloquear os pagamentos dos apoios caso o Estado-membro
em causa não estivesse a proceder às reformas necessárias -, explicou
que a solução que acabou por ser acordada “não permite a nenhum país ou
conjunto de países introduzirem qualquer tipo de veto”.“O
que permite é que, havendo uma divergência entre a avaliação que é
feita em sede de Ecofin e a Comissão Europeia, qualquer Estado poder
apelar a um debate político no seio do Conselho Europeu. E eu diria que
isso até, pelo contrário, reforça a dimensão política dessa avaliação e,
por outro lado, impede que quem quer que seja tenha um veto”, disse,
sublinhando que “o Conselho Europeu não vai substituir as competências
próprias da Comissão em matéria de autorização de pagamentos”.Já
quanto à questão da condicionalidade ao respeito pelo Estado de
direito, outra das matérias delicadas que opunha Estados-membros, o
primeiro-ministro disse que acabou por ser “uma questão relativamente
pacífica neste Conselho”, com todos a aceitarem a redação final
formulada.Havendo então já um acordo de
princípio – que terá ainda de ser formalizado – sobre o Fundo de
Recuperação, seguem-se, já ao princípio da noite do quarto dia de
cimeira, as negociações sobre o orçamento da União para os próximos sete
anos, que deixam adivinhar “umas boas horas de trabalho pela frente”,
assumiu Costa, que está preparado para permanecer em Bruxelas mais um
dia, pois quase seguramente o Conselho entrará pela noite dentro e
prosseguirá na terça-feira.