Portugal poderá vir a receber 1.800 ME do 'aumento de capital' do FMI
23 de mar. de 2021, 16:48
— Lusa/AO Online
Na
sexta-feira, os ministros das Finanças do G7 (sete países mais
industrializados do mundo) apoiaram medidas para que os países
particularmente vulneráveis à pandemia recebam maior ajuda financeira
através do FMI.Os países membros acordaram
apoiar uma emissão de Direitos Especiais de Saque (DES), um instrumento
criado pelo FMI para dar liquidez e ampliar os recursos disponíveis dos
Estados com necessidades financeiras, funcionando como uma espécie de
aumento de capital do FMI.De acordo com um
relatório da agência de 'rating' Fitch a que a Lusa teve acesso, que
calcula um aumento de 500 mil milhões de dólares (cerca de 418,6 mil
milhões de euros), este levaria a uma atribuição a Portugal de 2.200
milhões de dólares, cerca de 1.800 milhões de euros.O
valor final resultará da conversão da quota atual que Portugal tem no
FMI, correspondente a 0,43% do total e a 0,44% dos direitos de voto.Segundo
a Fitch, esse valor corresponde a 7,7% das reservas com que Portugal
ficará depois desta emissão do FMI, correspondentes a 28,2 mil milhões
de dólares (26,3 mil milhões de euros), e a 0,9% do Produto Interno
Bruto (PIB) nacional.No entanto, o valor
final ainda não é conhecido, estando agendados para abril os encontros
anuais do FMI e do Banco Mundial, onde esta questão deverá ser detalhada
e definida mais concretamente.Em resposta
à Lusa acerca da alocação que Portugal poderia fazer, o Ministério das
Finanças ressalva que não é "público ainda nenhum montante", remetendo
para o comunicado do G7, que expressa que os países irão "explorar como
os países poderiam voluntariamente reciclar as suas reservas de DES para
dar mais apoio aos países de baixos rendimentos"."Assim
sendo, estará a ser discutida uma alocação generalizada de recursos no
FMI, discussão que está ainda numa fase inicial, não estando ainda numa
fase de decisão sobre a 'reciclagem' [como está escrito no comunicado]
desses recursos para os países de baixo rendimento", precisa fonte
oficial das Finanças à Lusa.A anterior
emissão de Direitos Especiais de Saque, que funcionam como uma espécie
de 'moeda' do FMI contabilizada como reserva, foi realizada em 2009, e
Portugal ficou com 549,11 milhões de DES, tendo uma quota de 2.060,1
milhões de DES.Um DES é uma unidade em que
o dólar americano tem 41,73% do peso, o euro 30,93%, o yuan chinês
10,92%, o iene japonês 8,33% e a libra esterlina 8,09%, e tem uma
cotação publicada diariamente pelo FMI.Na segunda-feira, 1 DES correspondia a 1,19305 euros.Os
países africanos têm repetidamente pedido, nas últimas semanas, aos
países mais ricos para permitirem que a sua parte da nova alocação de
DES possa ser emprestada aos países que enfrentam maiores dificuldades e
que têm menos espaço de manobra orçamental para combater a pandemia e
relançar as economias.Em entrevista à Lusa
esta semana, a secretária executiva da Comissão Económica das Nações
Unidas para África, Vera Songwe, defendeu que os países africanos
precisam de ser ajudados porque, para além de menos fundos, têm também
um acesso mais caro ao mercado."Convém
lembrar que esta crise não é uma crise de África, não surgiu devido a má
gestão. África sofreu porque não tem acesso a uma moeda forte, e
enquanto os países desenvolvidos deram 20% do seu PIB em estímulos à
economia, com os Estados Unidos a aprovarem um plano de 1,9 biliões de
dólares [1,6 biliões de euros], o Japão com 700 mil milhões de dólares
[587 mil milhões de euros], os 54 países de África estão a pedir 100 mil
milhões de dólares [84 mil milhões de euros] em termos de acesso mais
fácil ao mercado", disse Vera Songwe.“O
que África está a argumentar é que se a alocação for de 500 mil milhões
de dólares, África recebe 25,6 mil milhões de dólares [21,5 mil milhões
de euros], e se forem 650 mil milhões de dólares [545 mil milhões de
euros], serão 32 mil milhões de dólares [26,8 mil milhões de euros], o
que é ainda é um montante muito baixo", acrescentou a responsável."Os
países do G7 recebem 217 mil milhões de dólares [182 mil milhões de
euros], e podem emprestar alguns desses recursos para [os países
africanos poderem] ter acesso ao mercado, que é muito difícil porque o
custo do capital é muito alto", acrescentou Vera Songwe.