Portugal não tem falta de água mas adia decisões como fez com aeroporto
Seca
16 de mai. de 2023, 08:48
— Lusa/AO Online
“Portugal
não tem falta de água, não está é a ter capacidade de gerir a água
convenientemente para que não haja escassez”, assegurou o presidente da
Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Eduardo Oliveira e
Sousa, em entrevista à Lusa, em Lisboa, pouco antes de deixar o cargo e
passar para a mesa da assembleia-geral. O
representante dos agricultores criticou a “falta de visão” do Governo
sobre esta matéria, lembrando que a CAP apresentou um documento, chamado
“Ambição Agro 2020-30”, no qual identificou os sete principais eixos
que necessitam de intervenção, com o impulso dos fundos europeus,
trabalhados por cientistas e técnicos que não pertencem ao setor.Entre
as sete áreas abordadas, estão a água e a seca, mas nem estes ou os
restantes temas foram aproveitados pelo Governo, lamentou Eduardo
Oliveira e Sousa. “Às tantas, veio a
notícia de que havia um reforço da verba que vinha para Portugal [no
âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência - PRR], de 1.634 milhões de
euros e, assim que soubemos, até porque no PRR o setor agrícola tinha
ficado excluído, lançámos uma dica ao senhor primeiro-ministro para que
aproveite esses 1.634 milhões de euros e os dedique à questão dos
recursos hídricos em Portugal”, referiu. A
ideia, segundo a CAP, era estudar os recursos hídricos em todos os
setores e fins, de modo a Portugal ficar protegido contra a seca e
contra os incêndios, “mas não aconteceu nada”, adiando Portugal as
decisões sobre a água, tal como aconteceu com o aeroporto. “Agora
estão quase obrigados a tomar uma decisão [sobre o aeroporto], depois
de quase 50 anos a estudar, dizem”, constatou o presidente da CAP,
avisando que Portugal não tem esse tempo no que concerne à seca. A
confederação dos agricultores disse ainda que o ano foi altamente
chuvoso, o que permitiu encher a grande maioria das barragens, e que
bastava aproveitar 1% da água que, no inverno, corre do rio Tejo para o
mar para melhorar substancialmente o problema e “travar o avanço do
deserto”. Eduardo Oliveira e Sousa alertou
também para o perigo de Portugal ter território abandonado “de pessoas e
atividades económicas”, que se transforma em “pasto para as chamas”,
pedindo que o mundo rural seja mais acarinhado pelo poder político do
que aquilo que tem sido até agora. O mundo
rural “não é só a tradição, os enchidos e os queijos e a paisagem”, tem
que haver 5G (quinta geração de redes móveis) no “ponto mais recôndito”
para que um jovem empreendedor consiga levar em diante a sua ideia no
meio de um mercado global, apontou, vincando que, se esse mesmo
empreendedor não tiver água, escolas e internet de qualidade, nem sequer
pensa em ir para esses locais. “É esta
visão, que conjuga uma união de matérias, que faz um mundo rural vivo e
isso não está no léxico, nos objetivos e na visão dos nossos governantes
e eu tenho muita pena”, afirmou. Em 08 de
maio, o Ministério da Agricultura e da Alimentação, tutelado por Maria
do Céu Antunes, reconheceu a situação de seca severa e extrema em cerca
de 40% do território nacional. Num
comunicado, o ministério garantiu ter sinalizado a situação junto da
Comissão Europeia, acrescentando que a adoção de um conjunto de medidas
está sempre dependente da “luz verde” de Bruxelas. De
acordo com o índice ‘PDSI – Palmer Drought Severity Index’, citado pelo
Governo, no final de abril, verificaram-se 40 municípios na classe de
seca severa e 27 em seca extrema, o que corresponde a cerca de 40% do
território.