Portugal e os Açores devem preparar-se para um choque estratégico externo
5 de mai. de 2025, 09:20
— Nuno Martins Neves
O mundo está a atravessar um momento de viragem, a todos os níveis, e
mesmo não sendo inédito, terá implicações para o futuro de todos os
países. Esta pode ser uma das ilações retiradas do discurso do
terceirense Miguel Monjardino na reflexão e debate promovido pela
Associação Seniores de São Miguel, sob o tema “O que está a acontecer na
política internacional? Primeiras implicações para os Açores”, que
decorreu numa unidade hoteleira em Ponta Delgada.O professor
universitário de Geopolítica e Geoestratégia, colunista de política
internacional e analista político-militar tentou fazer uma resenha do
turbilhão que o planeta Terra está já a viver, baseando-se na leitura
dos acontecimentos atuais, mas ancorado no passado.Monjardino
começou por desmistificar duas ideias - de que estamos a viver um
momento único na história, por um lado; e a dificuldade em compreender a
magnitude do que está a acontecer, por outro.“Estamos a viver um
momento especial, mas não é um momento único. Quem tem uma visão longa
da trajetória da história, percebe perfeitamente que já houve momentos
semelhantes ao nosso”, começou por dizer, acrescentando: “Daqui a 30
anos, quem aqui está perceberá melhor o que está agora a acontecer”.Com
isto, o analista nascido em Angra pretende explicar que, com humildade,
devemos reconhecer que “nós não sabemos bem o que está a acontecer, não
percebemos e temos dificuldade em descortinar, no meio do nevoeiro da
história, o que realmente pode estar do lado de lá”.No entanto, a
“chave” pode estar no passado, na literatura que foi escrita em momentos
de transição, tal como o que estamos a viver. Como os austríacos Stefan
Zweig ou Joseph Roth, “e não é por acaso, pois foram autores que
escreveram durante a desintegração do império austríaco e escreveram
livros absolutamente extraordinários sobre o que é ser europeu na
altura”.E é com este poder de analisar o presente, sabendo o que
aconteceu no passado, que Miguel Monjardino entende que “a ordem
económica internacional, que nós conhecemos e que foi construída
sobretudo pelos Estados Unidos da América (EUA) e os seus aliados
europeus, está a chegar ao fim”.Um final que deriva dos
“desequilíbrios comerciais e financeiros, em termos internacionais” que
atingiram tal magnitude que são “insustentáveis do ponto político, em
alguns países”.À plateia, Monjardino trouxe à colação a cimeira de
Angra, em 1971, entre o presidente francês Georges Pompidou e o seu
homólogo norte-americano RichardNixon, quando se deu o início do fim do
sistema de intercâmbio financeiro internacional que vigorava desde
1944 (o sistema Bretton Woods), com a passagem do padrão ouro para o
padrão dólar.“E muito do que está a ser dito sobre a Administração
Trump, foi dito em 1971. E muito do que Donald Trump diz da Europa, foi
dito em 1971 pelo Secretário do Tesouro norte-americano de então”,
recorda Monjardino.Mas se nessa altura foi possível chegar-se a uma
solução para um acordo de reequilíbrio das taxas de câmbio
internacionais, o analista não vê o mesmo a acontecer agora. “Hoje em
dia, com a China e muitos outros países integrados na economia
internacional, do meu ponto de vista será muito mais difícil conseguir
um acordo desse tipo”.E acrescenta: “Nós estamos a caminho de uma
ecologia económico-financeira que, do meu ponto de vista, será bastante
diferente daquela que nós temos agora. O que nós não conseguimos
descortinar é qual é a solução política para este problema”.No
segundo ponto levantado na reflexão, o professor universitário abordou a
política interna nas sociedades e como “estamos a chegar a um momento
em que, nas sociedades das repúblicas democráticas e nas monarquias
constitucionais, as divisões em termos de educação, produtividade, nível
de vida, expectativas e oportunidades são muito, muito grandes”.A
ideia de que as instituições e os regimes democráticos estão a chegar ao
fim e que é necessário derrubá-las para criar algo novo está a varrer
grande parte do mundo ocidental - em grande parte dos países europeus,
nos EUA, mas não no Canadá, explica o analista -, verificando-se “um
ataque sistemático às principais instituições das repúblicas
democráticas. E isso não acontece por acaso”.Mais uma vez,
Monjardino relembra que é algo que já aconteceu no passado, recordando
Tácito e a passagem da República Romana para o Império Romano.“Estamos,
do meu ponto de vista, a ver profundas divisões na ordem política e
interna, em praticamente todos os países europeus e, do meu ponto de
vista, isto deve-se a uma insatisfação muito grande dos eleitorados pelo
funcionamento das nossas instituições democráticas e, no fim de vida,
das expectativas pelo nível de vida, que as pessoas têm”. Para
Miguel Monjardino, o mundo atravessa, também, um “combate ferocíssimo”
ao nível da Ciência e Tecnologia, que no seu entendimento “vai
intensificar-se”, entre quem tem e quem desenvolve e aplica as
tecnologias mais avançadas.De tal forma que considera que estamos a
caminho de uma “bifurcação” em termos de sistemas tecnológicos e as suas
normas técnicas.“Nós hoje, ainda hoje, independentemente dos países
que visitemos no mundo, o ecossistema tecnológico é praticamente igual
para todos nós. Um telemóvel aqui funciona da mesma maneira no outro
país”, começa por dizer.“Mas essa tecnologia que usamos vem de um
determinado país: é provável que no espaço de cinco, 10 anos, eu não sei
se nós não caminharemos para uma situação bastante diferente, em que os
países - e isto vai ser muito interessante para Portugal e para muitos
países europeus, que é um dos grandes dilemas que vamos ter - vão ter de
decidir em que ecossistema tecnológico nós europeus, portugueses e
açorianos, vamos ficar. E convém que nós não nos enganemos na escolha”.Uma escolha importante pois, alerta, caso seja mal feita, pode ter consequências políticas.“Há
10 anos, qualquer decisão ao nível científico-tecnológico, que eu me
lembre, não era uma preocupação do Primeiro-Ministro. Era uma questão
técnica. Hoje em dia não é e cada vez será e terá impacto na política
científica de uma região autónoma como a nossa, do país e da União
Europeia. Em que áreas vale mesmo a pena investir e que preço estamos
dispostos a pagar para ter alguma autonomia em termos de sistemas
tecnológicos em áreas mais avançadas a nível mundial”.Com a
“bifurcação”a caminho e em passo acelerado, Miguel Monjardino assume
que Portugal “terá de considerar muito bem o que quer fazer com os
recursos que temos nessas áreas e como é que os vamos aplicar”. Até
porque, acrescenta, “nós estamos a viver hoje verdadeiras situações de
embargo científico-tecnológicos. Já estamos a viver, por exemplo, os EUA
e alguns dos seus aliados europeus, a não aceitarem transferir quer
conhecimento, quer tecnologias para a China, para a Rússia, por exemplo.
E os chineses estão a fazer exatamente a mesma coisa. Estamos a viver
situações dos primeiros embargos em relação a certos tipos de
matérias-primas e recursos, que são essenciais para as aplicações
científico-tecnológicas”.As mudanças em curso também têm impacto no
xadrez geoestratégico mundial, que “por agora”, deixa os Açores de fora.
Monjardino assinala a mudança de posicionamento dos EUA, pela mão da
Administração Trump (mas que o especialista entende que será seguido
pelas futuras administrações, independentemente do partido no poder na
Casa Branca).“Todos nós nesta sala, somos o produto de uma época em
que os EUA viram a sua hegemonia do ponto de vista dos benefícios dessa
hegemonia. Não é que os EUA não tivessem consciência dos custos dessa
hegemonia: mas as vantagens eram consideradas muito superiores aos
custos. O mundo em que vivemos, em Portugal, nos Açores, tudo o que nós
temos a nível económico, social e político, deriva dessa avaliação
norte-americana. Essa avaliação, como sabemos, mudou. Esta
Administração norte-americana tenderá, do meu ponto de vista, por razões
de política interna, a prestar mais atenção aos custos dessa hegemonia.
E isso levará a uma alteração estrutural das estratégias
norte-americanas para as próximas décadas”.Concentrando os recursos
numa conceção geoestratégica, o hemisfério ocidental, que começa na
Gronelândia, passa pelo norte do Canadá até ao Canal do Panamá, e indo
das ilhas Aleutas ao arquipélago do Havai.“E isto, como estamos a
ver, terá enormes consequências na relação de Washington com os seus
aliados, quem são os aliados, como é que esse relacionamento se
processa. E veremos, neste processo de reorganização, uma coisa que nos
choca e que já tínhamos esquecido - mas por isso é que a história é útil
- que é o exercício brutal do poder”, reconhece.O poder exercido de
forma benigna, ao abrigo do direito internacional está a ser
substituído, explica, que é algo que acontece em períodos de transição,
como os que estamos a viver.A finalizar, o analista político avisa
que Portugal e os Açores vão sofrer um “choque estratégico externo”, que
forçará o país e todas as alianças estabelecidas a um processo de
adaptação “que pode ser mais ou menos difícil, em função da rapidez com
que o ecossistema se adaptar à realidade do amanhã”.Será um choque
distinto do choque interno que o país teve com o 25 de Abril e com o que
se sucedeu - que permitiu aos Açores negociar um regime que lhe fosse
mais favorável” - e que coloca os políticos em função perante um dilema,
explica Monjardino.“Falar claramente disto às pessoas e explicar
que, numa fase inicial isto terá um preço, um custo político em termos
de ajustamento, provavelmente que será considerado um suicídio político,
principalmente em ano de eleições. Mas não o fazer, terá um custo ainda
maior, porque a sociedade viverá anestesiada, acreditando que vive num
período histórico que já terminou, e acreditando firmemente que não há
nenhum preço a pagar por isto que está a acontecer”.