Portugal ainda tem "algum atraso" nas questões de igualdade de género
3 de jun. de 2019, 17:51
— Lusa/AO Online
Manuel
Heitor falava na sessão de abertura do ‘SAGE Day – Igualdade de Género
no Ensino Superior’, que hoje decorreu no ISCTE – Instituto
Universitário de Lisboa onde foi apresentado um estudo que dá conta da
baixa presença das mulheres em lugares de liderança nas universidades e
politécnicos portugueses.“É um tema a que
temos que estar muito atentos e temos que garantir uma discussão muito
profunda. […] também na questão crítica de que géneros é que estamos a
falar. É um tema que está muito atrasado no debate em Portugal e por
isso o apelo que fiz aqui, para que o trabalho próprio de investigação
se faça nos termos em que outras sociedades já estão a falar”, disse o
ministro à Lusa.Numa intervenção na sessão
de abertura Manuel Heitor também mencionou que em alguns países a
questão do género já tem uma abordagem bastante alargada, o que deixa
Portugal atrasado face a outros exemplos onde já se “abriram outras
fronteiras”.Na passagem dos resultados da
investigação à sua concretização em ação, o ministro referiu a “questão
crítica”, sobretudo no ensino superior, da dualidade entre mérito e
igualdade de género, argumentando que a defesa do mérito não pode levar a
esquecer a paridade.Pedro Dominguinhos,
presidente do politécnico de Setúbal e do conselho coordenador destes
institutos, também presente na sessão de abertura, referiu que entre os
politécnicos apenas um tem um corpo diretivo exclusivamente masculino,
mas defendeu que é preciso promover a igualdade e considerar para
discussão medidas como quotas, até porque a desigualdade tem reflexos
nas carreiras e nos salários.Para Manuel
Heitor a questão da igualdade no ensino superior “é mais complexa,
porque é, sobretudo, confundida com uma diversificação disciplinar”.“Temos
áreas disciplinares, não só em Portugal, particularmente dominadas por
mulheres - a área da farmácia é uma - e depois temos outras áreas
disciplinares onde só temos homens, nomeadamente na área do digital. Por
isso o assunto é bastante mais complexo, porque parte de estigmas
criados desde a infância, sobre para onde é que as mulheres e homens
vão. Por isso é que é importante haver trabalho de investigação, mas que
tenha impacto na ação”, disse.Apenas 13%
das instituições de ensino superior em Portugal são lideradas por
mulheres, que continuam a enfrentar barreiras no acesso aos cargos de
maior prestígio das universidades e politécnicos, revela um estudo
divulgado na semana passada. Há já alguns
anos que as mulheres representam a maioria dos doutorados, mas depois
continuam a ter grandes dificuldades em aceder aos cargos de maior
prestígio, segundo o estudo que analisou o universo de professores que
trabalha nas universidades e institutos politécnicos. A
identificação das disparidades foi feita pelo projeto europeu SAGE -
Systemic Action for Gender, financiado pelo programa Horizonte 2020, que
contou com a participação do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa.
O estudo põe a descoberto os obstáculos à
ascensão na carreira académica e a dificuldade em serem nomeadas ou
eleitas para cargos de liderança na academia. Em Portugal apenas 13% das
mulheres foram escolhidas para reitoras ou presidentes de um instituto
politécnico. Nas 15 universidades que
integram o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) e
nas 15 instituições do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores
Politécnicos (CCISP), são quase sempre os homens quem decide.As exceções são o ISCTE-IUL, a Universidade de Évora, a Universidade Católica e o Instituto Politécnico do Cávado e Ave. Estas
diferenças não encontram reflexo no número de docentes do ensino
superior, que é quase paritário entre ambos os sexos: 45% são mulheres e
55% são homens, segundo dados de 2017. Apesar
de o número de docentes no ensino superior português ser quase igual
entre ambos os sexos, apenas um em cada quatro professores catedráticos é
do sexo feminino. A prevalência dos homens também é marcante na categoria de professores associados, já que apenas um em cada três é mulher. As
desigualdades não são um problema exclusivo de Portugal. Em toda a
Europa há mais mulheres doutoradas do que homens e eles continuam a
ocupar a maioria dos lugares de maior estatuto académico. Depois
de identificadas as desigualdades de género nas instituições de ensino
superior, o ISCTE elaborou uma ‘Carta de Princípios para a Igualdade no
Ensino Superior’, que cobre aspetos que estão ligados às políticas de
igualdade no acesso a lugares de decisão. As
oportunidades de progressão e os valores salariais, assim como o défice
de conhecimento das desigualdades de género que o ensino superior tende
a reproduzir são outros dos pontos focados na Carta de Princípios.