População de Rabo de Peixe queixa-se do estigma no primeiro dia sem cerca
Covid-19
14 de dez. de 2020, 16:33
— Lusa/AO Online
“Se é para depois virem falar mal de Rabo de Peixe, nem vale a pena falar”, atira uma jovem.É
essa a postura de grande parte da população de uma vila ‘escaldada’
pela exposição mediática, maioritariamente negativa, não só pelo surto
hoje com 221 casos ativos de covid-19, como pelo rótulo de pobreza que
vem sempre associado ao nome desta freguesia açoriana.Em
‘off’, as conversas são longas, mas à vista de um gravador as mulheres
recolhem-se dentro de casa ou das mercearias, e os homens aproveitam
para mostrar o seu desagrado sobre a maneira como a freguesia tem sido
retratada nas notícias.Um estigma que
trazem na pele e que chega a prejudicar o seu trabalho, como explica
Telmo Moniz, de 34 anos. Este vendedor ambulante de pescado, que mesmo
durante a cerca sanitária trabalhou “todos os dias”, ressentiu-se com as
notícias do surto.A sua principal
clientela é a restauração, explica, contando que “já acontece, de
algumas três semanas para cá, as pessoas de Rabo de Peixe chegarem aos
sítios e eles dizerem ‘epá, foge daí’”.“Rabo
de Peixe não é diferente de qualquer parte do mundo. Há muitas pessoas a
desviarem-se, a não quererem aparecer à porta. Pensam sempre que a
maioria dos vendedores ambulantes são de Rabo de Peixe, a maioria mesmo,
então as pessoas estão com medo”.Telmo
diz ficar, por vezes, saturado: “As pessoas julgam pela aparência aquilo
que é e isso não é justo. Mas pronto, é levar com paciência”, desabafa.Quanto
ao surto na freguesia, diz concordar com todas as medidas que foram
tomadas. Ainda assim, alerta, “as pessoas pensam que já passou, mas
não”.“A gente, graças a Deus, fez um bom
trabalho, os ‘rabepexinhos’ fizeram aquilo que tinha de ser feito”,
considera, lembrando que a zona piscatória é “muito populosa” e “as
pessoas são muito unidas”.Um amigo do
vendedor, que não quer identificar-se nem falar diretamente com a Lusa,
lembra que a freguesia tem cerca de 10 mil pessoas e que os 221 casos
detetados representam apenas cerca de 2% da população.Para
Telmo Moniz, o Governo “está fazendo um grande trabalho”, mas é preciso
“um bocadinho de vigilância – passar a polícia aqui, também para as
pessoas temerem”.“Acho que era uma boa
iniciativa para as pessoas, porque isto não acabou. As pessoas pensam
que isto acabou, mas isto tem muito caminho pela frente ainda”,
prossegue.Um caminho que passa pela
sensibilização das pessoas, acredita Telmo, ou por encerrar os cafés e
os aeroportos, como defende uma moradora com quem a Lusa se cruza duas
vezes nas ruas de Rabo de Peixe, sempre junto a mercearias.A
mulher, que defende medidas mais restritivas, deixa um convite para
que, para o ano, “quando as coisas estiverem melhores”, todos visitem a
vila de Rabo de Peixe, para conhecer a realidade de que tanto se fala.E
a realidade que se testemunha no primeiro dia de liberdade, depois de
10 dias de cerca sanitária, não é muito diferente daquela que era
possível encontrar no dia antes de a medida ter sido implementada.Os
homens continuam a encontrar-se junto aos cafés e às esquinas, mas
sempre com máscara posta, e as mulheres vão galgando as ruas, entre uma
mercearia e outra, parando à porta de casa para conversar.Quem
também está na mesma é José Salvador, um pescador de 53 anos, que a
Lusa volta a encontrar na sua casa de aprestos, junto ao porto de
pescas.Quase duas semanas depois, “está a mesma coisa, só que está aumentando um bocadinho” o número de casos, refere.“O
presidente da Câmara fez uma coisa bonita, o pessoal todo concordou com
isso. Fez aí todos os testes e quem esteve de quarentena ficou em casa.
Cumpriram a lei. As pessoas que estão de quarentena estão arrumadas e
aqueles que não estão estão saindo”, sintetiza.José Salvador já fez “o teste três vezes – deu sempre negativo”.Enquanto
assim for, há de continuar a ir para a casa de aprestos, preparar a
arte de pesca, à espera de que o tempo melhore e possa voltar ao mar,
depois de quase um mês sem lá ir.Mas, desta vez, o discurso é mais positivo: “Isso há de melhorar. Onde faz mau tempo, também pode fazer bom tempo”, remata.A
vila de Rabo de Peixe, no concelho da Ribeira Grande, tem hoje 221
casos ativos de covid-19, mas é esperado que nos próximos dias haja
muitas recuperações da doença.Rabo de
Peixe esteve entre dia 03 e as 23:59 de domingo com uma cerca sanitária,
tendo também sido testada a população da vila, numa ação descrita pela
junta como uma "megaoperação".Os Açores têm hoje, no total, 485 doentes com covid-19.O
coordenador do combate à covid-19 nos Açores, Gustavo Tato Borges,
havia também dito aos jornalistas no começo da operação de testagem em
Rabo de Peixe – ocorrida entre 04 e 06 deste mês - que era esperado um
aumento significativo de casos nos dias seguintes, mas, volvidos 10
dias, um também significativo número de pessoas recuperadas da doença.Apesar
do fim da cerca, o Governo dos Açores determinou a manutenção do
encerramento das escolas de Rabo de Peixe até ao final do corrente
período letivo.A medida foi justificada
com a "avaliação, próxima, presente e permanente, das diversas entidades
envolvidas", e com o facto de faltarem cinco dias para o final do ano
letivo.