População das Sete Cidades diz que “Deus vai ajudar” a acabar com o "xaile negro"
3 de abr. de 2020, 19:02
— João Alberto Medeiros / Lusa
A moradora das
Sete Cidades, um dos maiores pontos turísticos da ilha de São Miguel,
devido à beleza da sua paisagem, que atrai milhares de turistas,
considera que o cenário tornou-se “mais assustador” com a introdução por
parte da Autoridade de Saúde das cercas sanitárias nos seis concelhos
da ilha, desde as 00:00 de hoje. Com 791
habitantes, de acordo com o Censos de 2011, a cerca de 20 quilómetros de
Ponta Delgada, a economia das Sete Cidades é dominada pela
agropecuária, e para além das carrinhas de caixa aberta, tratores e
máquinas agrícolas que dão apoio à lavoura, o movimento é nulo. Ilda
Sousa, de 52 anos, surge nas ruas desertas a caminho de uma outra
habitação familiar, que não aquela onde reside, para "alimentar os
animais", uma tarefa que confessa fazer diariamente com “muito receio”
devido à pandemia de covid-19.“Foi como um xaile negro que caiu sobre a gente”, afirma Ilda Sousa.O
xaile negro é típico dos Açores e usado em sinal de luto, tendo gerado
uma série da RTP/Açores, realizada por Zeca Medeiros, com base no
romance de José de Almeida Pavão, que escolheu como cenário a freguesia
das Sete Cidades.Mãe de dois filhos e três
netos, a ex-emigrante canadiana emociona-se quando refere que não vê os
seus pequenotes há cerca de um mês: “Deus vai ajudar, sou católica,
tenho fé”.Ilda Sousa reza “muito a Nossa Senhora de Fátima” para “voltar a ver” os netinhos, mas “há-de ser o que Nosso Senhor quiser".O
lavrador Nicolau Alves, de 61 anos, refugia-se em casa na jardinagem,
quando não vai à sua exploração alimentar e ordenhar as suas 45 vacas
diariamente.Os seus colegas também têm cumprido com as recomendações das autoridades de saúde, porque estão “assustados com este cerco”.Tinha
alguns animais para abater no matadouro, que seria uma fonte de
rendimento extra, mas a chegada da covid-19 comprometeu, para já, esta
meta. Enquanto tocam os sinos da igreja
local, Paulo Melo, de 45 anos, funcionário público, - profissão da
maioria dos habitantes em idade ativa da freguesia, que se deslocam
diariamente a Ponta Delgada para os seus postos de trabalhos na câmara
municipal ou no Governo Regional - não esconde a sua preocupação face ao
vírus: “está claro, isso está preocupando todos nós”.Paulo
Melo, pai de quatro filhos, três dos quais residem consigo, apenas sai
pela manhã para apanhar o pão na padaria, fazendo compras nas suas
mercearias locais e na freguesia vizinha dos Ginetes, num hipermercado,
onde há “mais escolha e quantidade”. A
presidente da Junta de Freguesia das Sete Cidades, Cidália Pavão,
declara que existem atualmente 39 produtores de leite na freguesia,
“todos no ativo, felizmente”, enquanto os idosos, que representam parte
importante da população local, “têm-se mantido em casa”, e os restantes
habitantes, também, numa “atitude exemplar, saindo só para o
necessário”.Na eventualidade de
necessitarem de cuidados de saúde, a autarca refere que os locais, face
ao encerramento dos serviços, têm de se dirigir às unidades de saúde das
freguesias vizinhas das Feteiras e Mosteiros.Apesar
da unidade de saúde local estar encerrada, a enfermeira e a médica
local têm vindo a acompanhar a população, de forma particular os mais
idosos, enquanto a Secretaria Regional da Solidariedade Social tem vindo
a identificar, por telefone, os que vivem sós e as suas necessidades.