Pobreza faz aumentar casos de crianças em Portugal sem acesso a serviços de saúde
18 de dez. de 2023, 12:42
— Lusa/AO Online
O trabalho realizado por
dois investigadores da Nova School of Business and Economics (Nova SBE),
Pedro Pita Barros e Carolina Santos, lança o alerta: A pobreza estar a
impedir muitas famílias de irem a consultas ou urgências, num país onde
os menores estão isentos das taxas moderadoras.No
ano passado, 15,63% das famílias com crianças e jovens até aos 15 anos
não foi visto por um profissional de saúde apesar de estar doente,
segundo o trabalho dedicado ao “Acesso das Crianças a Cuidados de
Saúde”, que faz parte da “Série Análises do Setor da Saúde” e que
permite ver a evolução do fenómeno desde 2013.O
inquérito mostra que a situação se agravou, já que no ano anterior, os
agregados que não acederam a cuidados de saúde representavam 13,33% do
total.O trabalho mostra ainda que ao longo
da última década, houve sempre mais de 10% dos inquiridos nessa
situação, sendo 2015 e 2017 os piores anos, já que mais de uma em cada
quatro famílias não foi vista por um profissional de saúde apesar de
estar doente (20,48% e 23,48%, respetivamente).Os
investigadores quiseram perceber se esta redução se poderia atribuir a
episódios de doença menos graves, mas detetaram que as crianças de
famílias mais carenciadas enfrentavam “barreiras de acesso de natureza
financeira mais elevadas”, lê-se na nota informativa a que a Lusa teve
acesso.Ora, num país onde os menores estão
isentos de pagar taxas moderadoras no Serviço Nacional de Saúde,
“provavelmente subsistem dificuldades noutras despesas associadas com o
acesso a cuidados de saúde”, alertaram os autores.“Na
globalidade, os resultados evidenciam que a origem do problema de
acesso das crianças a cuidados de saúde reside na pobreza infantil”,
concluem, saudando os mecanismos de discriminação positiva existentes no
SNS, mas defendendo que é preciso ir mais longe.Para os investigadores da Nova SBE é preciso combater a pobreza para conseguir mitigar as barreiras no acesso.“O
objetivo de assegurar cuidados de saúde adequados à população não
poderá ser alcançado unicamente por via de políticas de saúde, stricto
sensu. É necessário (re)avaliar a implementação de políticas de proteção
social abrangentes, uma vez que estas complementam as políticas de
saúde”, salientam no documento.O estudo
compara também os agregados familiares com crianças com menos de 15 anos
e acima dessa idade e conclui precisamente que as famílias com crianças
pequenas são mais afetadas e procuram menos o sistema de saúde.Um
indicador comum entre estes dois grupos de agregados familiares é o
facto de ambos não comprarem todos os medicamentos necessários.No
ano passado, cerca de 18,37% dos inquiridos de famílias com crianças
com menos de 15 anos não adquiriu todos os medicamentos necessários ao
tratamento do episódio de doença.Existiam
ainda outros fatores com potencial de influenciar o acesso a cuidados de
saúde, como não ter médico de família, mas os investigadores concluíram
que as famílias com crianças mais pequenas não eram mais desfavorecidas
neste processo.“Ambos os tipos de
agregados foram negativamente afetados pela falta de médicos de
família”,lê-se no documento hoje divulgado que mostra que é cada vez
mais difícil ter médico de família.Quase
nove mil pessoas participaram nos vários inquéritos realizados pela Nova
SBE entre 2013 e 2022, sendo os inquiridos "uma amostra representativa
da população residente em Portugal", refere o documento a que a Lusa
teve acesso.