Plano Regional de Prevenção do Suicídio é necessário nos Açores
11 de set. de 2024, 09:43
— Carlota Pimentel
Como forma de assinalar o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, a
Sociedade Portuguesa de Suicidologia promoveu uma conferência no
auditório do Hospital Divino Espírito Santo (HDES), onde foram debatidos
diversos assuntos relacionados com a avaliação e gestão do risco
suicidário, a realidade do suicídio e a sua prevenção.Na ocasião,
Margarida Bicho, interna de psiquiatria do HDES, alertou para a
necessidade de se criar um Plano Regional de Prevenção do Suicídio,
tendo em conta que, a nível nacional, o documento já está a ser
ultimado. “Até agora, ainda não se criou o Plano Regional de
Prevenção do Suicídio nem foram colocadas barreiras suficientes para
prevenir que os suicídios continuem a acontecer”, afirmou a interna de
psiquiatria do 5º ano do Hospital de Ponta Delgada, adiantando que a
situação das pontes do Nordeste, local onde já ocorreram vários
suicídios na ilha de São Miguel, está sinalizada há pelo menos seis
anos. Segundo Margarida Bicho, em 2019 foi elaborada uma petição e
foi publicado um parecer sobre a mesma, no qual os decisores políticos
“foram sensíveis”, mas adverte para a necessidade de agir: “É preciso
estudar estes hotspots (pontos quentes) onde as pessoas cometem mais
suicídio, perceber a arquitetura dos sítios, conversar não só entre os
médicos, mas também com as câmaras municipais, com os engenheiros e
arquitetos”, na medida em que a criação do PlanoRegional de Prevenção
do Suicídio envolve e implica a colaboração de “uma série
profissionais.” Para dar o primeiro passo, “precisamos do apoio dos
decisores políticos”, declarou Margarida Bicho. “Quanto mais rápido
procedermos a isto, mais mortes podemos evitar”, acrescentou. Além
da instalação de barreiras nas pontes para o Nordeste, Margarida Bicho
apontou a colocação de proteções “em sítios onde pode ocorrer
precipitação para o vazio”, bem como “limitar o acesso a pesticidas e a
substâncias tóxicas” como algumas “situações em que conseguimos
intervir.”Em declarações aos jornalistas, Isabel Areal Rothes,
presidente da Sociedade Portuguesa de Suicidologia, afirmou que os
Açores têm uma realidade específica comparativamente ao continente:
“Enquanto as taxas nacionais e internacionais estão estáveis ou têm até
diminuído, nos Açores aparentam um aumento.” Por isso, defende que é
importante os Açores “irem buscar as medidas globais validadas” e
adaptá-las às suas especificidades, bem como haver uma articulação entre
“aquilo que se sabe da ciência, as estratégias e o comprometimento
político.”Por outro lado, a psicóloga justifica que o aumento da
taxa de suicídio nos Açores pode estar relacionado com “mudanças na
notificação, melhorias na forma como se notifica” e com a diminuição do
tabu sobre o suicídio.Como principais explicações para a taxa de
suicídio nos Açores ser superior à média nacional, Margarida Bicho - que
ficou encarregue de apresentar no evento o estudo levado a cabo pelo
psiquiatra João Mendes Coelho, que analisou as mortes por suicídio entre
2001 e 2021 na ilha de São Miguel -, aponta o “isolamento insular, a
falta de oportunidades, o nível socioeconómico, a presença de doença
mental, a falta de acesso aos cuidados de saúde mental e o consumo de
substâncias psicoativas que parece ser um grande problema atualmente
em São Miguel.”De acordo com a interna de psiquiatria, em termos de
idade, nas regiões insulares existe um padrão decrescente, “o que
significa que as pessoas cometem suicídio em idades mais jovens”,
contrariamente ao que acontece em Portugal continental, onde os
suicídios ocorrem normalmente em idade mais avançada. Isabel Areal
Rothes e Margarida Bicho realçam a importância de investir na área de
acompanhamento psicológico e psiquiátrico, de modo a prevenir casos de
suicídio. Cerca de 120 pessoas cometeram suicídio em São Miguel entre 2001 e 2021 Conforme
o estudo do psiquiatra João Mendes Coelho, que procedeu à análise dos
relatórios e autópsias do Gabinete Médico-Legal dos Açores Oriental,
através do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses, 117
pessoas cometeram suicídio, entre 2001 e 2021, em São Miguel. O estudo
demonstrou que as mortes por suicídio ocorrem, sobretudo, em indivíduos
do sexo masculino, entre 25 e 45 anos, solteiros, empregados no setor
terciário, “que podem ter uma perturbação do uso de substâncias ou uma
doença mental, sobretudo uma depressão, sem acompanhamento pela
psiquiatria ou psicologia”, explicou Margarida Bicho. O estudo concluiu,
ainda, que o enforcamento é o método mais utilizado em São Miguel e que
a maioria dos suicídios ocorrem na primavera ou no inverno,
especialmente em janeiro.