Plano para deportados açorianos 'não pode ser igual ao criado na década de 1990'
29 de jan. de 2025, 15:41
— Lusa/AO Online
“É
importante que a região se organize e arranje um plano de prevenção ou
de atuação, caso isto aconteça, mas não poderão nunca ser as mesmas
respostas que foram desenhadas para a população que cometeu crime”,
afirmou a psicóloga, em declarações à agência Lusa.Suzete
Frias trabalhou em várias instituições na ilha de São Miguel que
acompanharam emigrantes açorianos deportados por terem cometido crimes.No
final da década de 1980, a legislação norte-americana foi alterada e
muitos emigrantes açorianos foram deportados, sobretudo nas décadas de
1990 e 2000, não por estarem indocumentados, mas por terem cometido
crimes, alguns até pequenos delitos.“Foi
um problema, porque foram deportados muitos e nós não estávamos
preparados cá para [os] receber. E eram pessoas com um percurso de
exclusão social antes da deportação, outros com problemas de
toxicodependência, outros com entradas e saídas da prisão por motivos
vários e outros até com doença mental, que os levou a cometer alguns
crimes”, revelou a psicóloga.Para Suzete
Frias, a população que poderá ser deportada com a administração Trump
terá características muito diferentes e, por isso, o processo de
adaptação será mais fácil.Muitos dos que
chegaram na década de 90 tinham emigrado em crianças com os pais e
quando regressaram aos Açores não falavam português, não partilhavam a
mesma cultura e não tinham uma rede familiar de apoio.“Quando
agora falamos da possibilidade de deportar indocumentados, estamos a
falar de uma população que, no seu grosso, emigrou já adulta, com
competências. Foi à procura de uma vida melhor. E nós sabemos que a
nossa comunidade, documentada ou não, está bem inserida na sociedade
americana e tem contribuído positivamente”, salientou a psicóloga.Há
quem fale na possibilidade de existirem 5.000 famílias em situação
irregular nos Estados Unidos, número que Suzete Frias acredita
ser “excessivo”.“Estes alarmismos, na
minha opinião, poderão estar a centrar uma atenção disruptiva na nossa
comunidade, quando deveríamos centrar a atenção pelo lado positivo. Tem
sido uma população que tem contribuído em muito para o crescimento da
América”, alegou. Ainda assim, defende que a região se deve preparar para uma eventual deportação, começando por caracterizar essa população.“O
importante era fazer uma caracterização das pessoas que estão
indocumentadas e que possam sofrer um processo de deportação. Ver há
quantos anos emigraram, as suas áreas profissionais, as competências e
aí pensar em incentivos, caso aconteça a deportação”, apontou.O
plano que o executivo açoriano já está a preparar para acolher estes
emigrantes não pode ser uma cópia do criado na década de 90, porque as
necessidades da população não são as mesmas, alertou.Neste
caso, as principais preocupações serão com a habitação e o emprego,
pelo que Suzete Frias defende a criação de incentivos para que os
deportados possam criar o seu próprio emprego ou para que as empresas
açorianas os possam integrar.“Muitos deles
terão competências em áreas que podem até estar deficitárias na região e
até pode ser um ‘input’ positivo para a região essa mão de obra”,
salientou.Os filhos menores, que já tenham
nascido nos Estados Unidos, poderão não dominar a língua, mas as
escolas açorianas já ensinam português como língua não materna para
estrangeiros.A psicóloga considera que o
executivo açoriano e o Governo português devem tentar negociar os
critérios de deportação e facilitar a legalização dos emigrantes
indocumentados que vivem há mais anos nos EUA.Devem
também tentar garantir que os deportados não perdem direito às suas
coisas e, em cooperação com as organizações lusófonas, “alertar e educar
os possíveis indocumentados a arranjar um plano B”, que passe, por
exemplo, por transferirem dinheiro para Portugal e por nomearem um
procurador para tratar dos seus bens.“O
que tem acontecido com as pessoas que são deportadas por crime é que
elas perdem completamente os direitos de tudo, inclusivamente de
documentos como a carta de condução. Vêm sem nada”, alertou.Suzete
Frias acompanha há vários anos emigrantes açorianos deportados por
terem cometido crimes. Os números são hoje mais reduzidos, sobretudo
graças a um trabalho exaustivo por parte das organizações lusófonas, mas
continuam a ocorrer deportações.Dos que
chegaram na década de 90, “muitos conseguiram integrar-se bem”, outros
mantêm-se até hoje em acompanhamento, “porque têm patologias crónicas”.“A
deportação não foi um fator de exclusão. Eles já tinham um fator de
exclusão lá, ou por patologia ou até por percursos criminais”, explicou.Muitos
emigraram em crianças e foram inseridos nas escolas sem saber falar
inglês. Os pais tinham dois e três trabalhos, por isso cresceram “sem
grande monitorização” e acabaram por “criar laços e vinculação a grupos
de risco na rua”.“Temos pessoas que
cometerem crimes devido à patologia de adição ou de doença mental.
Alguns foram presos por terem na sua posse canábis. Alguns cometerem
homicídios ou roubaram, mas o grosso eram pessoas que, devido a
patologias, cometeram pequenos delitos”, revelou a psicóloga.