Planeamento, consistência e regularidade: os pilares do sucesso do Santa Clara
9 de jun. de 2024, 08:35
— Arthur Melo
Veni, Vidi e Vici, a expressão latina proferida pelo general e cônsul
romano Júlio César bem se pode aplicar ao Vasco Matos que chegou aos
Açores, viu e venceu ao serviço do Santa Clara?As coisas correram
bem. O planeamento foi bem feito. Não foi só um trabalho meu, foi um
trabalho de toda a estrutura e o planeamento é o grande segredo das
coisas. As coisas acabaram por correr bem e temos de tirar daqui grandes
ensinamentos para o futuro, porque a preparação, tudo aquilo que
envolveu esse processo, foi muito importante para o sucesso deste ano.Outro dos ingredientes para este sucesso foi a união, o espírito que se criou dentro do grupo de trabalho?Sim,
também. Mas vem tudo do planeamento. Quando identificamos o jogador não
olhamos só para aquilo que ele pode aportar para a equipa em termos do
jogo. É muito importante o lado humano, conhecermos a pessoa que está
por trás do jogador, aquilo que foi o seu trajeto enquanto jogador, mas
também tirar o máximo de informações enquanto pessoa, enquanto ser
humano. Para nós isso é muito importante porque estes valores, durante a
época, vamos ter bons momentos e esses são fáceis de gerir e
ultrapassar e de estar a vivê-los, mas também quando acontecem os maus
momentos se não tivermos esses valores instituídos, por muito que nós os
alimentemos e os trabalhemos, se o jogador não tiver esses valores,
fica mais difícil. E isso, este ano, foi muito importante para o sucesso
da nossa época.O perfil do jogador foi uma característica tida em
conta e que certamente está a ser tida em conta na elaboração do próximo
plantel?É uma coisa que não podemos, não devemos e não vamos
abdicar. No ano da descida da I Liga a SAD não teve muito tempo na
construção do plantel, mas temos tempo suficiente para construir um
plantel. Temos de dar muito valor aos jogadores e plantel que nos ajudou
e fez com que hoje o Santa Clara esteja na I Liga, porque o grosso da
equipa está lá. Não vai haver grandes mudanças, mas temos de perceber
que quem vem tem que vir acrescentar dentro daquilo que são as nossas
ideias. Para nós o lado humano é muito importante. Temos de ser muito
assertivos nessas escolhas e não podemos falhar, temos de ser muito
criteriosos, escolher bem, porque isso é muito importante para aquilo
que vai ser a época do Santa Clara na I Liga.Para a próxima época acha que a equipa necessita de muitas contratações? O mercado nacional será novamente o mercado alvo?Este
ainda é um momento de análise, perceber o mercado porque o mercado de I
Liga é diferente do de II Liga. Não é um mercado tão fácil. A maior
parte do nosso plantel está resolvido, acreditamos muito naqueles
jogadores que temos e que nos ajudaram a subir a divisão, mas queremos
trazer jogadores para acrescentar e esses jogadores têm que ser bem
escolhidos. Se me pergunta se as melhores opções são jogadores que já
conhecem o nosso campeonato, para mim faz todo o sentido, mas temos que
perceber o que é que o mercado nos dá para depois tomarmos as melhores
decisões. Se pudéssemos escolher jogadores que reunissem as
características para o nosso modelo de jogo, isso para mim é um fator
importante. Não podemos estar a contratar jogadores só porque sim. Temos
de contratar jogadores em função do que são as nossas necessidades, em
função das características que pretendemos para nossa ideia de jogo e
que acrescentem ao que precisamos ao nosso plantel. Mas também
percebemos que é um mercado diferente e temos que estar muito atentos,
não podemos ter pressa em tomar decisões. Temos é de ser assertivos e
chegar a jogadores que tenham experiência no nosso campeonato.Está preparado para perder algum atleta neste defeso?Isso
é natural. Estou preparado e fico contente se assim acontecer. É sinal
que fizemos bem as coisas. Quando chegamos ao Santa Clara os jogadores
estavam desvalorizados e acabamos a época com muitos jogadores
valorizados, jogadores com muita qualidade que podem chegar a outros
patamares e se assim for é sinal que fizemos bem as coisas, é sinal que o
trabalho foi bem feito e que temos de ir à procura de outros jogadores.
Não temos que ir buscar os melhores, temos que os tornar melhores e se
eles saírem é porque fizemos bem as coisas e neste momento o Santa Clara
tem jogadores que estão preparados para outros patamares e fico muito
contente se assim acontecer.Com a participação na I Liga vai manter o
seu modelo de jogo (ideia de jogo) ou será necessário dotar a equipa
com dinâmicas e sub-dinâmicas diferentes para que esta seja competente
perante adversários mais fortes do que encontrou esta época na II Liga?O
ponto de partida na nossa ideia de jogo vai ser o mesmo, mas vão haver
nuances. Vamos apanhar adversários com outra capacidade e vamos ter
nuances em alguns momentos do jogo. Estamos a preparar isso e a
perceber, na construção do plantel, em muitos momentos do jogo termos
capacidade sempre dentro daquilo que é o nosso ponto de partida, criar
essas dinâmicas e essas sub-dinâmicas para estamos mais confortáveis e a
equipa estar mais confortável em jogo e percebermos que vamos para
outro nível e que em determinados momentos do jogo temos de ser mais
efetivos, mais fortes. Estamos a preparar-nos para isso, daí ser
importante quando escolhermos esses novos jogadores que tem muito a
haver com isso, com essas características que podemos dentro do jogo
aportar à equipa e que façam a equipa estar ainda mais forte, mais
preparada.Defender bem e com rigor e atacar com eficácia foram as
bases para o sucesso desportivo do Santa Clara. São também os alicerces
para a próxima temporada?Continuar dentro da nossa linha. Queremos
melhorar algumas questões e acrescentar à equipa algumas coisas
diferentes, mas temos que perceber que essa segurança tem que continuar.
Como vão transitar muitos jogadores isso já está enraizado e trabalhado
e a equipa sente-se confortável. Mas não podemos parar. Há muita coisa
para melhorar na nossa equipa e novos desafios virão. A exigência vai
ser muito maior, as dificuldades vão ser muito maiores e vamos ter que
nos superar. A importância dos jogadores que possam entrar na nossa
equipa é fundamental para evoluirmos como equipa, porque temos ainda
muito trabalho para fazer e temos que nos preparar bem.O processo
defensivo é fulcral, como também o processo ofensivo. Queremos melhorar o
nosso processo ofensivo e este ano faltou-nos quatro ou cinco golos e
em termos ofensivos tinha sido uma época muito boa, não por falta de
oportunidades, porque felizmente criamos e tivemos muitas oportunidades.
No futebol isso acontece, nem todos os anos são iguais, mas o nosso
ponto de partida, a nossa base, são bons posicionamentos, organização
defensiva, porque, depois disso, advém o nosso processo ofensivo, ou
seja, se defendermos bem estamos melhor preparados para atacar.Quais vão ser os maiores desafios do Santa Clara – e do Vasco Matos, também – na próxima edição da I Liga?O
nosso foco, claramente, é o campeonato. O ano passado trabalhamos a
parte mental por tudo aquilo que tinha sido vivido no ano anterior e
este ano vamos ter de trabalhar a parte mental. Este ano na II Liga foi
muito bom, onde a equipa bateu muitos recordes, tivemos muitas vitórias,
a equipa teve um êxito tremendo. Mas para o ano as dificuldades vão ser
muito maiores. Este ano batemos o recorde de pontos do clube, fomos a
única equipa que não perdeu fora na I e na II Liga, a melhor defesa do
campeonato e do top-10 europeu, a única equipa que pontuou contra todos
os adversários, estivemos 15 jogos seguidos sem perder, estivemos 24
jornadas seguidas no primeiro lugar! Foi uma época onde tivemos muito
sucesso, muito êxito e para o ano não vai ser assim. Vai ser mais
difícil. A nossa preparação mental para isso vai ter que ser diferente
porque vamos ter de conviver com dificuldades maiores, obstáculos
grandes e vamos ter que estar preparados para os ultrapassar. Essa vai
ser a nossa base, percebermos que vamos entrar num campeonato muito mais
difícil e temos que ter consciência que se calhar não vai ser um
campeonato onde vamos ter tanto êxito como este ano e vamos ter de
trabalhar muito a parte mental dos jogadores e da estrutura. É
fundamental a estrutura estar completamente alinhada.Foram 40 jogos
realizados ao longo da época 2023/2024, com 23 vitórias, 13 empates e
quatro derrotas. Assim de repente, qual foi o melhor jogo do Santa Clara
esta temporada?Fizemos bons jogos. A equipa foi crescendo, no
início, até pelo sistema de jogo, tivemos algum tempo de adaptação, mas
depois a equipa foi crescendo, foi uma equipa muito regular, o nível
exibicional manteve-se sempre na mesma bitola e acho que a equipa fez
jogos muito consistentes, foi muito regular, não teve grandes
oscilações. Falar de um jogo... Lembro-me da primeira parte da
Oliveirense, no Mafra entrámos fortíssimos, com o FC Porto B também.
Depois houve jogos em que nas segundas partes, por exemplo esse último
com o Leiria, fizemos uma segunda parte avassaladora. Fomos muito
consistentes e regulares ao longo da época. E este foi também um dos
grandes segredos na nossa época.E o pior?Não gostei do jogo com o
Penafiel em casa! Foi um jogo na parte inicial da época... Com o
Benfica B também não gostei, tivemos alguns momentos do jogo em que não
conseguimos controlar. Sinceramente, não me lembro de um jogo em que
diga que a equipa esteve muito mal. Pode não ter sido regular ao longo
dos 90 minutos, mas tivemos sempre uma consistência. A nossa equipa
sempre soube estar em jogo. Mesmo nos momentos menos, bons mantivemos
essa serenidade e tranquilidade e isso define muito uma equipa. Nos
momentos menos bons mantivemos uma coesão e uma serenidade que nos
permitiram voltar ao jogo e voltar a estar por cima no jogo. E é isso
que queremos transportar para a próxima época.De todas as equipas que defrontaram, qual o adversário que causou mais dores de cabeça na preparação do jogo?Somos
uma equipa técnica que trabalha muito, que vai sempre ao detalhe e ao
pormenor. Tínhamos dias que saíamos do estádio pelas 19, 20 horas. Como
temos o escritório ao lado do campo vamos ao campo perceber se os
exercícios funcionam. Como equipa técnica fazemos isso muitas vezes e
detalhamos todos os adversários ao pormenor. No início da época o
Vilaverdense era uma equipa bem organizada, uma equipa que metia muita
gente por dentro, criava muita superioridade no corredor central e
detalhávamos muito estas questões. Não houve uma equipa que nos desse
mais ou menos trabalho, porque cada equipa tem a sua ideia de jogo, são
diferentes, têm nuances diferentes e porque é um trabalho que gostamos
de fazer, detalhamos muito aquilo que é o adversário, sempre dando a
prioridade àquilo que é a nossa equipa, o nosso modelo de jogo. Damos
muita importância à questão estratégica. Hoje há equipas bem orientadas,
com excelentes treinadores, equipas que também trabalham o pormenor
naquilo que é o jogo ofensivo, defensivo, os posicionamentos, as
alterações que eles podem fazer em função daquilo que é o jogo e nós
temos que preparar também esses momentos, onde eles alteram e temos que
estar preparados para quando as coisas acontecerem nós já termos
resposta para isso. Por isso é que é um trabalho que demora, longo
porque há muitas questões que temos de estar preparados para elas e
todos os adversários requerem muitas horas. Há muita coisa para ser
vista, analisada, que são os esquemas táticos, as bolas paradas, todos
esses detalhes têm de ser bem preparados. Por isso, olhamos para todos
os adversários com máximo respeito e o nosso rigor e a nossa exigência,
enquanto equipa técnica e equipa, olhamos muito para dentro e, em
primeiro lugar, somos muito exigentes connosco.