PJ rejeita que as ilhas façam parte de redes internacionais de tráfico
Droga
11 de jul. de 2008, 09:48
— Lusa/AO
Entrevistado pela agência Lusa, o coordenador da PJ nos Açores, Afonso Oliveira, sublinhou que, devido à localização geográfica das ilhas, os potenciais traficantes “poderão” passar ao largo dos Açores, mas “não terá grande credibilidade a tese de que a droga se destina ao mercado regional”.
“Pontualmente, e por razões logísticas, poderão os mesmos ter que vir a portos açorianos para se reabastecerem (combustível e mantimentos) e ainda por razões de emergência, nomeadamente por condições atmosféricas ou avarias mecânicas, uma vez que o destino será o continente europeu, explicou Afonso Oliveira, a coordenar a PJ nos Açores desde finais de 2004.
A título de exemplo, referiu a apreensão de três iates nesta região, um em São Miguel (em 2001), outro em Santa Maria (2002) e em 2003, nas Flores.
Cocaína e haxixe são os tipos de droga cujas apreensões têm aumentado na região, segundo os dados da PJ.
Só este ano, já foram apreendidos 32 quilos de cocaína e sete quilos e 400 gramas de haxixe.
Em 2007, a PJ apreendeu três quilos e 300 gramas de cocaína e 370 gramas de haxixe.
Entre 2006 e Junho deste ano, aquela polícia apreendeu também, nos Açores, 37 pés de liamba e 370 gramas de liamba e deteve um total de 61 pessoas por tráfico de droga, maioritariamente homens.
Em 2007, foram ainda apreendidos 18 “selos” de LSD.
No âmbito do combate ao tráfico de droga, a PJ nos Açores apreendeu, desde 2006, um total de 17.900 euros em dinheiro, além de viaturas, telemóveis, objectos e peças em oiro.
A Policia Judiciária investiga redes devidamente organizadas, tráfico internacional, tráfico por via marítima ou quando está em causa algum suspeito que transacciona elevadas quantidades de produto, explicou o responsável.
Segundo Afonso Oliveira, a maioria dos detidos fica em prisão preventiva, o que acaba por facilitar a tarefas das autoridades policiais, tendo em conta que podem reincidir na prática do crime.
O coordenador garantiu à Lusa que a PJ nos Açores tem vindo a exercer “um controlo mais apertado em determinados pontos estratégicos”, nomeadamente “portos e aeroportos”.
Para o sociólogo do Comando Regional da PSP, Alberto Peixoto, é “um mito” pensar-se que as ilhas são escaladas por redes de tráfico internacional de droga, o que só acontece “acidentalmente”.
Sublinhando o controlo exemplar que é feito em todas as marinas e portos açorianos, o sociólogo referiu à Lusa que, “por norma”, as redes de tráfico internacional de droga “não têm contactos na região”.
Com uma população estimada em 243 mil habitantes, apenas 10 a 11 por cento já teve experiências com drogas, indicou Alberto Peixoto, autor de vários estudos sobre o fenómeno.
O sociólogo admite existir “uma maior propensão” para o consumo dos vários tipos drogas, incluindo álcool, durante o Verão, onde ocorrem mais festas e consequentemente mais interacção.
“Obviamente que o dependente consome todo o ano, mas ao nível dos consumos recreativos sabe-se que há uma maior sazonalidade nos meses de Verão”, acrescentou.
Um recente inquérito, realizado em 2007, mostra que o número de portugueses que admite ter consumido droga pelo menos uma vez na vida aumentou de 7,8 para 12 por cento entre 2001 e 2007, mas diminuiu entre os mais jovens.
De acordo com Alberto Peixoto, também nos Açores há uma população maior que já experimentou droga.
Um fenómeno “crescente que na década de 90 era praticamente inexistente nos Açores, mas ganhou maior visibilidade, com uma maior sensibilização da comunidade ao nível dos comportamentos suspeitos”, referiu.
Segundo Alberto Peixoto, durante a década de 90 o consumo de droga era feito envolto num grande secretismo, em locais muito recônditos, daí que o fenómeno não tinha muita visibilidade.
O sociólogo defendeu a criação no arquipélago de um organismo com “a tutela em exclusivo” de todas as questões relacionadas com a droga, uma entidade com orçamento e programa próprio.
“Seria um organismo aglutinator com linhas de orientação de acordo com as especificidades locais em cada concelho, no âmbito da repressão (policias), mas também ao nível das campanhas de sensibilização e estudos sobre a problemática”, concretizou.