PGR rejeita enviar cartas rogatórias para o Brasil para ouvir pai
Caso gémeas
15 de out. de 2024, 15:04
— Lusa/AO Online
De
acordo com um parecer assinado pela ex-PGR Lucília Gago, ao qual a Lusa
teve acesso, o inquérito parlamentar não tem poderes judiciais,
não produzindo “efeitos na ordem jurídica internacional”.No
documento de 91 páginas, que foi solicitado por Lucília Gago “com
urgência” em setembro, a PGR sustenta que entre Portugal e Brasil “não
vigora nenhuma convenção internacional, bilateral ou multilateral, que
preveja a extensão dos instrumentos de cooperação judiciária aos
inquéritos parlamentares e aos poderes da investigação das comissões que
os levam a cabo”. A posição da PGR sobre
as cartas rogatórias – pedidos a um país terceiro para efetuarem
diligências - foi confirmada à Lusa depois de a informação ter sido
avançada pela TVI/CNN Portugal. Em
setembro, Lucília Gago tinha solicitado “com urgência” um parecer sobre o
pedido da comissão parlamentar de inquérito ao caso das gémeas para que
fossem enviadas cartas rogatórias ao Brasil visando a audição do pai
das crianças e de Juliana Drummond, companheira de Nuno Rebelo de Sousa.
O presidente da comissão
parlamentar de inquérito, Rui Paulo Sousa, disse à Lusa que o espírito
de colaboração da PGR “foi completamente ignorado”. “Tem
sido ignorado desde o último parecer, no qual o PGR adjunto de um
parecer favorável, falo sobre a questão comunicações – WhatsApp, etc. –,
e depois mais tarde um novo parecer da própria PGR, onde diz tudo o
contrário do parecer original. […] Agora, dizem que não satisfazem o
nosso pedido”, realçou. O também deputado
do Chega indicou que “alguns dos argumentos” utilizados no parecer da
PGR “são completamente absurdos”, quando o objetivo do pedido da
comissão é “localizar testemunhas”. “Já
tentámos todos os meios – embaixadas e Ministério dos Negócios
Estrangeiros – e foi impossível. O último meio que existe na lei é
precisamente este”, observou. Rui Paulo
Sousa condenou ainda a justificação que a PGR dá ao não reconhecer o
papel das comissões parlamentares de inquérito, dizendo que “gozam de
poderes de investigação das autoridades judiciais”. “As
comissões têm direito à coadjuvação das autoridades judiciais, órgãos
da polícia criminal, autoridades administrativas, nos mesmos termos que
os tribunais e por aí fora. Portanto, o nosso pedido é perfeitamente
legítimo”, disse, citando o artigo 13.º sobre os poderes das comissões.O
presidente da comissão referiu ainda que “o correto seria enviar para
um tribunal, levar a um juiz com poder para decidir se dava deferimento
ou indeferimento ao pedido”.“Isso posso
aceitar. Agora, o Ministério Público nem sequer levar o pedido é que eu
acho que é mesmo uma falta total de colaboração com a comissão
parlamentar de inquérito”, defendeu.À
Lusa, Rui Paulo Sousa lembrou que a comissão já está mandatada para as
cartas rogatórias, acrescentado que vai “prosseguir com esse objetivo”.“Já
dei ordens nesse sentido há comissão, aos serviços jurídicos, para
prepararem o envio direto do pedido para um tribunal, que poderá aceitar
ou não. E se aceitar, levará a um juiz, que dirá se sim ou se não. Que
era, no fundo, o que devia ter feito o Ministério Público”, vincou.