PGR avisa que revisão da lei do recurso às escutas pode fazer cair investigações
11 de set. de 2024, 12:21
— Lusa/AO Online
“A
opção existe e é óbvio que pode ser alterada, ainda que consideremos que
a lei, tal como está, está bem. O Ministério Público [MP] apenas
recorre a escutas quando justamente e de forma criteriosa percebe que
elas são essenciais”, começou por dizer Lucília Gago, complementando:
“Se for outra a opção do legislador, algumas investigações poderão vir a
soçobrar. É bom que não tenhamos qualquer dúvida”.Em
audição na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e
Garantias, a propósito da apresentação do relatório de 2023 do MP e na
sequência de vários processos mediáticos que agitaram a sociedade, a
procuradora-geral da República (PGR) frisou também que o máximo de
escutas foi atingido em 2015, com mais de 15 mil interceções, enquanto
em 2023 ficaram abaixo das 11 mil.“Em
qualquer circunstância, as escutas carecem de autorização judicial e de
renovação dessa mesma autorização. Ou seja, tem de haver do magistrado
titular do processo a avaliação de recorrer a escutas e também da
magistratura judicial idêntica leitura, não só naquele momento como
aquando das renovações”, referiu.Questionada
sobre o tempo prolongado de realização de algumas escutas telefónicas
que vieram a público no último ano, a procuradora-geral da República
destacou que essas situações “são absolutamente excecionais” e apenas
ocorrem porque “se reconhece a necessidade para as finalidades do
inquérito”. Lucília Gago salientou também
que o peso das escutas nos inquéritos é reduzido e “tem vindo a diminuir
de forma sustentada”, notando que “os inquéritos com escutas nunca
atingiram 2,5% dos inquéritos em cada ano e em 2023 não chegaram a
1,5%”.Apesar de ter sido questionada por
praticamente todos os partidos sobre a alegada existência de uma
“campanha orquestrada” contra o MP, conforme denunciara na entrevista em
julho à RTP, Lucília Gago nunca respondeu sobre essa matéria.A
procuradora-geral ignorou também o suposto envolvimento do
ex-primeiro-ministro António Costa no processo Operação Influencer,
embora confrontada diretamente sobre essa situação pelo deputado do PCP
António Filipe.Entre as matérias mais
enfatizadas pelos diversos partidos nas suas intervenções esteve a
violação do segredo de justiça e a omissão desta questão no relatório de
atividades, bem como a falta de resultados no combate a essa situação.
No entanto, Lucília Gago afastou a responsabilidade do MP e salientou
que um eventual reforço da investigação desse crime poderia levar à
utilização de mais interceções telefónicas.“O
MP surge como tendo sobre si uma presunção de culpa, o que é uma coisa
extraordinária. Esse clima interessa aos arguidos e respetivas defesas,
sob efeito de se vitimizarem e desviar o foco das suspeitas de crimes de
assinalável gravidade”, declarou, reforçando: “Se se pretende perseguir
e punir os responsáveis pela violação do segredo de justiça, teremos de
autorizar o recurso a meios intrusivos de prova, como as escutas”.Lucília
Gago defendeu também, perante a insistência dos deputados, que os
excessos nos interrogatórios prolongados para arguidos detidos, como os
21 dias registados no caso de alegada corrupção na Madeira, “foram
situações absolutamente excecionais”.Considerou
ainda que a impugnação em 2021 da diretiva sobre o exercício dos
poderes hierárquicos, apresentada pelo Sindicato dos Magistrados do
Ministério Público (SMMP), “não invalida que se mantenha em vigor” e
assegurou que “não foi reportado qualquer constrangimento” e que “está
esclarecida a intervenção hierárquica que pode acontecer” no MP.