Pescar atum nas áreas marinhas protegidas dos Açores seria inconstitucional
17 de set. de 2025, 16:33
— Lusa/AO Online
“Julgo que este diploma é
inconstitucional e, do ponto de vista científico, devo dizer que todos
os cientistas com quem falei sobre este assunto, mesmo sem ter ligação a
este processo, são claros em dizer que numa zona de proteção total não
pode haver nenhuma atividade de pesca”, afirmou o jurista, ouvido hoje
na comissão de Assuntos Parlamentares, Ambiente e Desenvolvimento
Sustentável do parlamento dos Açores, reunida em Ponta Delgada.O
professor da Universidade Católica foi ouvido a propósito de uma
proposta apresentada pelo PS no parlamento açoriano, que defende a
criação de uma exceção à proibição da pesca nas novas áreas marinhas
protegidas, para os pescadores e armadores de atum utilizarem a pesca de
“salto e vara”, considerada uma arte “seletiva” e “amiga do ambiente”.“Fiz
o esforço de questionar quem não esteve envolvido neste processo, mas
que é da área da biologia marinha, e a resposta que me é dada é que a
pesca de salto e vara não é sustentável, é um mito. Não é verdade que
seja mais sustentável, do ponto de vista de preservação dos recursos”,
salientou.A Assembleia Legislativa dos
Açores aprovou em outubro um diploma do Governo Regional de coligação
PSD/CDS-PP/PPM que aumenta para 30% as áreas marinhas protegidas dos
Açores (15% de proteção parcial e 15% de proteção total), antecipando as
medidas de preservação ambiental propostas pela União Europeia.A
entrada em vigor da nova legislação, inicialmente marcada para 01 de
outubro, foi entretanto adiada para 01 de janeiro de 2026.Na
audição, o jurista considerou ainda que criar áreas marinhas protegidas
sem serem de reserva total, como propõem agora os socialistas, teria
como consequência imediata a perda de apoios comunitários para compensar
a quebra de rendimentos dos pescadores.“Desapareceria
o nível de proteção total, o que significa que desapareceria também, do
ponto de vista científico, aquele que era o pressuposto para a criação
de uma área marinha protegida, não apenas do ponto de vista de proteção
de recursos, mas também do ponto de vista económico”, salientou.Armando
Rocha alertou também os deputados que qualquer “retrocesso” em matéria
de proteção marinha no arquipélago, faria com que a imagem externa dos
Açores junto das instâncias comunitárias ficasse também “penalizada”.“A
posição da região autónoma é cada vez mais vulnerável em matéria de
proteção ambiental e este projeto de alteração torna ainda mais
vulnerável a posição dos Açores quanto à exploração de recursos marinhos
adjacentes à região”, realçou o jurista.O
professor da Universidade Católica apelou igualmente à classe política
açoriana para que encare este processo de proteção marinha como uma
“oportunidade de futuro” para a região e não como uma “penalização” para
os profissionais do setor das pescas.