Peritos alertam para infeção por virus sincicial respiratório e pedem prevenção universal
27 de mar. de 2023, 07:51
— Lusa/AO Online
Num
documento a que a Lusa teve acesso e que será entregue à tutela, os
peritos lembram que as infeções respiratórias por RSV obrigam a
hospitalizar por ano 5,6 crianças em cada 1.000 com menos de cinco anos
de idade.“Aos 12 meses de idade,
aproximadamente metade das crianças já teve uma infeção pelo vírus
sincicial respiratório. (…) E os estudos dizem que aos três anos todas
as crianças já tiveram pelo menos uma vez o vírus sincicial
respiratório”, diz à agência Lusa o pediatra Manuel Magalhães, do Centro
Materno-Infantil do Norte, que participou neste trabalho.O
médico explica que a infeção pode ir desde uma simples constipação até
ao “quadro grave de bronquiolite aguda ou pneumonia vírica”, com
necessidade de internamento em cuidados intensivos, alertando que
dependendo de alguns fatores (bebés prematuros, com baixo peso ou que
têm patologia crónica), o risco de mortalidade aumenta.No
documento, os peritos sublinham que a maioria das hospitalizações (95%)
“ocorrem em crianças saudáveis" e lembrando que o real impacto do RSV
em Portugal está “significativamente subestimado”, apontando para a
necessidade de melhorar a estratégia de combate, que consideram
ineficaz.As recomendações agora conhecidas
surgiram na sequência do RSV Think Tank – Inspirar à mudança, uma
iniciativa Sanofi conduzida em parceria com a XXS - Associação
Portuguesa de Apoio ao Bebé Prematuro e a APES - Associação Portuguesa
de Economia da Saúde. O painel de especialistas contou com a
participação de médicos pediatras e neonatalogistas, médicos de saúde
pública, enfermeiros, economistas, associações de pais, autoridades de
saúde e decisores.Além de apontarem a
necessidade de conhecer o real impacto destas infeções em Portugal –
recordando que apenas se conhece o peso dos casos que chegam aos
hospitais -, insistem na importância de definir medidas a três níveis:
literacia, farmacológicas e não farmacológicas.Para
ultrapassar as barreiras quanto à literacia, recomendam que o tema
passe a ser de abordagem obrigatória nas consultas com o pediatra para
determinadas faixas etárias. Para isso, sugerem a alteraçao do boletim
individual de saúde infantil e juvenil.Para
reduzir a disseminação do RSV, além das medidas habituais de proteção
usadas na pandemia de covid-19 (máscaras e lavagem frequente das mãos),
pedem que seja facilitado o processo burocrático da falta ao trabalho
dos pais.Se assim não for, os pais, não
podendo faltar, acabam por ter de levar os filhos para as creches e
aumentar as possibilidades de outras crianças serem contaminadas,
adiantam.Manuel Magalhães lembra que estas
crianças “são vetores de transmissão do vírus sincicial respiratório
para os adultos e para os avós”, que, se estiverem mais fragilizados,
“também têm risco aumentado de doença grave e, eventualmente,
mortalidade”.Quanto às medidas
farmacológicas, defendem a criação de um grupo de trabalho nacional
dedicado ao RSV ou a reestruturação do grupo que desenvolveu a norma
relativa ao Palivizumab, o anticorpo monoclonal usado para prevenir
doença grave e que é administrado apenas a alguns casos prioritários.Pretendem
ainda que deva existir um “método preventivo universal” que seja
disponibilizado “de forma equitativa” a todas as crianças.Manuel
Magalhães lembra que além anticorpoo monoclonal usado nalguns casos em
Portugal (Palivizumab), está disponível um outro (nirsevimab), aprovado
em Espanha.França e Itália "estão também a
avançar nesse sentido": “A estratégia seria administrar este anticorpo
monoclonal para prevenir infeção grave em crianças no primeiro ano de
vida, protegendo-as a todas”.“O
palivizumab não estava aprovado para dar a todos, só mesmo aos bebés
prematuros e com grande risco. Esta nova molécula [nirsevimab] está
testada e aprovada para dar a todos, de forma segura. A administração
universal antes da época sazonal do RSV pode verdadeiramente mudar a
doença respiratória aguda na infância”, acrescenta.