Pedro Mota Machado, o astrofísico que leva o nome dos Açores até ao Universo
26 de out. de 2025, 09:00
— Susete Rodrigues
Pedro Mota Machado é Investigador no
Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço e professor na
Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Pertence à União
Astronómica Internacional e é doutorado em Astrofísica pelo
Observatório de Paris e pela Universidade de Lisboa. Está envolvido
em inúmeros projetos internacionais com agências espaciais e tem um
asteroide com o seu nome. Mas também é um apaixonado pela escrita,
por viagens e, acima de tudo, é um apaixonado pelos Açores, pela
terra onde nasceu.É um contador de histórias e foi
neste registo que nos contou a sua história. Com um tom de
nostalgia, orgulho e saudade quando fala dos Açores e num tom
entusiasta quando fala da sua profissão, das suas viagens.
Confessou-nos que está “sempre com saudades de voltar para os
Açores. Tenho pena de não poder viver nos Açores, fazendo aquilo
que faço, mas volto muitas vezes com uma grande satisfação. É a
minha terra”. Refere que teve uma “grande sorte por ter nascido
em Ponta Delgada, porque, como costumo dizer, sou um açoriano das
ilhas todas. Adoro ter sorte”.Partilha connosco a sua primeira
história, descrevendo o gosto que tem em vir aos Açores, “aliás,
o que vou dizer é um dever dos cientistas, que é partilhar o que
vamos fazendo com a sociedade civil. Tenho um prazer enorme de ir às
escolas dos Açores, à Universidade, e levo sempre as coisas que vou
descobrindo. Acho que se nota que adoro o que faço e gosto de
partilhar esta motivação, esta alegria da descoberta”.As suas memórias de infância são de
um tempo “em que cabia tudo”. Lembra-se de “estar na escola e
havia tempo para ir até o Clube Naval, jogar ténis ao fim da tarde,
estar com os amigos. Essa foi uma das riquezas que não esqueço”,
disse, sublinhando: “tive uma bela vida. Tive uma excelente
infância. Um grande contacto com a natureza”. Recorda o avô que
“tinha uma quintinha e ajudava-o. Adorava estar com ele, era o meu
grande amigo. Aliás, acho que desde aí que gosto de velhos -
aprendo muito”. Uma das coisas que aprendeu com avô foi “essa
relação de equilíbrio com a natureza”.E como surgiu o gosto pela astrofísica?
Pedro Mota Machado responde assim: ‘É incrível, não é? Como é
que um açoriano, em que o céu dos Açores está, tantas vezes,
nublado... faz quatro estações num dia, e de vez em quando há uma
nesga descoberta”, disse entre risos, para questionar: ‘Como é
que é possível um açoriano ficar fascinado pelo cosmos?’”. E à
nossa questão, responde: “Acho que passa um pouco por estar numa
ilha, por termos mais tempo para nós próprios e pensarmos nesta
coisa incrível que é nós existirmos (...)”. Conta-nos que o avô
lhe dava umas moedas pelo trabalho que fazia na quinta, “juntei-as
para comprar o meu primeiro livro, que ainda tenho na minha
biblioteca. Foi um livro sobre o sistema solar, tinha sete anos.
Então em que é que trabalho? Sou especialista em ciências
planetárias. Portanto, não havia volta a dar”. A acrescentar a
este livro, Pedro Mota Machado, afirma que “quando era miúdo,
passou na televisão uma série sobre o espaço, ‘Cosmos’ com
Carl Sagan e fiquei, até hoje, fascinado”. A este respeito,
partilha uma coincidência, sem antes dizer que “adoro
coincidências, até porque, quando há muitas coincidências em
ciência, quer dizer que estamos à beira de fazer uma nova
descoberta. Mas a coincidência que queria partilhar é que “há
cerca de um mês, estive numa conferência de Ciências Planetárias,
em Helsínquia e estive com a diretora, em Nova Iorque, da Fundação
Carl Sagan, Lisa Kaltenegger, com quem já colaboramos e encetamos
uma nova colaboração”. (…)Foi homenageado pelo Grupo de Trabalho
para a Nomenclatura de Pequenos Corpos da UAI com a atribuição do
seu nome a um asteroide (32599 Pedromachado) que orbita o Sol entre
os planetas Marte e Júpiter. Pedro Mota Machado diz que foi um ato
de amor, “os meus colegas, sem me dizerem nada, propuseram o meu
nome. Não estava nada à espera, porque não é a minha base de
trabalho”, embora faça observações destes pequenos corpos, mas
“ofereci os dados aos meus colegas especialistas na área, do
Observatório de Paris, de Espanha, nos Estados Unidos. Então, eles
propuseram, os marotos, o meu nome para dar a um asteroide. Um
asteroide que dizem que é muito feio. Portanto, sai ao pai”, disse
bem disposto, acrescentando que “um dia o meu telefone tocou,
atendi e disseram-me: ‘From now on, your name shines on the sky’
(A partir de agora, o teu nome brilha no céu). (…) Fiquei
comovido, confesso”.Uma das suas paixões são as viagens e
delas traz “mais luz nos olhos, mais mundo na minha mente, no meu
espírito”, referiu para sublinhar que “continuo a ser muito
criança em algumas coisas. Continuo a ficar completamente extasiado
com as maravilhas da natureza e não resisto a partilhar uma história
que aconteceu há pouco tempo: Estava a fazer observações em Mauna
Kea, no Havai, com os meus colegas americanos e franceses, e quando
as coisas correm bem, fazemos um convívio. Tinha levado, como
sempre, chá dos Açores - contei a história do chá dos Açores,
porque é mais uma desculpa para contar uma história e falar nos
Açores. Neste convívio, os meus colegas americanos disseram, que
iam levar um doce tradicional daquele local. Não vai acreditar no
que vou dizer. Qual era o doce? Eram as malassadas açorianas. Como
se sabe, há muitos descendentes de açorianos no Havai. Foi um
reencontro das malassadas com o chá açoriano”. Há cerca de um
mês foi até à Lapónia, apreciar a aurora boreal, “é uma coisa
artística, parece que estamos banhados em cores e fiquei
completamente maravilhado, mas é só porque sou muito criança
ainda”.Pedro Mota Machado é especialista em
atmosferas planetárias, “estudo vários planetas do Sistema Solar,
com a atmosfera do planeta Vénus, de Marte, mas também a ligação
com o Sol, com a superfície de Marte e de Vénus. Também estudo
Júpiter e Saturno, e as Luas, que são Luas muito especiais, que
pertencem ao Sistema de Júpiter (...)”. Nos últimos anos,
“comecei o advento de uma nova investigação, que é a descoberta
de novos mundos, os exoplanetas, que são planetas que orbitam outras
estrelas, que estão muito longe de nós, e que estamos agora a
começar a poder caracterizá-los (...)”. Faz parte de diversas
missões, como a Akatsuki, do Japão, a Ariel da ESA, a Mars Express.
Neste último ano “convidaram-me para fazer parte da missão
ExoMars e faço parte também de uma missão que está em construção
neste momento, a EnVision, também da ESA, que tem uma componente
portuguesa muito forte - assim como a Ariel. No caso da missão
EnVision, vai ser lançada para estudar Vénus, a ligação da
superfície com a atmosfera”, afirmou.Para além das viagens adora escrever,
diz que “é algo que me acompanha ao longo da minha vida e tem a
ver com outro velho que adorava, um velho de São Miguel, que
chamava-se Manuel Ferreira, (jornalista e escritor açoriano,
falecido em 2012) e que tinha a paciência de me acolher na sua casa
e estar horas e horas a conversar comigo. É como se fosse o meu
padrinho literário (..)”, recorda com saudade.Pedro Mota Machado lançou o livro
‘Quatro Ventos, Sete Mares - O mundo pelos olhos de um viajante’,
fez várias exposições de fotografia sobre a temática das viagens,
esteve também envolvido, com o seu irmão, Luís Mota Machado, e com
Alexandre Coutinho, no livro ‘A Irmandade dos Romeiros’. Declara
que “está tudo interligado. Isto é uma das belezas da ciência,
quando começamos a ver que não é por acaso que está tudo mesmo
interligado”.Vê com bons olhos o facto de os Açores
terem um papel ativo no desenvolvimento do setor espacial português.
Frisa, contudo, que “as coisas têm de ser feitas de uma forma
correta, como agora acho que está a ser feito. Ou seja, a população
local deve estar sempre a par de tudo, deve participar nas decisões,
porque é a sua terra. As questões ambientais e ecológicas, devem
ser sempre acauteladas”, disse para acrescentar que “se achasse
que as coisas não estavam a ser bem feitas, seria o primeiro a ser
contra, e mais, a explicar porque é que era contra. Agora digo que
as coisas estão a ser feitas de uma forma equilibrada, de acordo com
a proteção da natureza e das pessoas, que pode ser muito benéfico
para o desenvolvimento tecnológico, social e cultural dos Açores”.