Parlamento dos Açores chumba proposta de regime de ação climática
12 de mai. de 2023, 16:48
— Lusa
“Não
duvido das boas intenções da vossa proposta”, explicou Alonso Miguel,
secretário regional do Ambiente e das Alterações Climáticas do Governo
dos Açores, que entende que algumas das medidas previstas no diploma
seriam “difíceis de alcançar”, dando como exemplo a substituição de
carrinhas movidas a combustíveis fósseis por carrinhas elétricas,
equipamentos que garante não estarem disponíveis no mercado.No
plenário da Assembleia Legislativa Regional, que decorre na cidade da
Horta, também Nuno Barata, da Iniciativa Liberal, considerou
“irrealistas” as metas defendidas pelos proponentes, nomeadamente ao
impor obrigações às empresas privadas, em matéria de despoluição.“Temos
de ser responsáveis naquilo que estamos a aprovar. Temos de ser
responsáveis nas metas que queremos atingir. Temos de cumprir primeiro o
que há para cumprir, para então depois termos a ambição, de fazer mais e
melhor”, justificou o parlamentar liberal.Carlos
Furtado, deputado independente, considera que, além das empresas,
também as pessoas iam ter dificuldade em cumprir as metas defendidas
pelo PS e pelo PAN, sobretudo porque implicam que “gastem mais dinheiro”
com essas exigências.“Não há dinheiro!
Estamos numa região pobre! Isso é óbvio! Se não há dinheiro, não há
objetivos! Não podemos impor às famílias que deixem de pôr o pão na
mesa, para porem painéis fotovoltaicos nas suas casas”, advertiu Carlos
Furtado (ex-deputado do Chega).Pedro
Neves, deputado do PAN, explicou que o seu partido só decidiu apresentar
a proposta, em conjunto com o PS, porque o Governo Regional de
coligação (PSD, CDS-PP e PPM), nunca apresentou um diploma sobre a mesma
matéria no parlamento.“O PAN nunca quis
fazer uma lei do clima para os Açores porque estava à espera do Governo,
mas o Governo nunca mais fazia a sua parte”, lamentou o parlamentar do
partido das Pessoas, Animais e Natureza, acrescentando que o executivo
já devia “ter dado corda aos sapatos” em relação a este tema.José
Pacheco, do Chega, discordou de algumas da metas previstas na proposta,
observando que “não se pode obrigar” as pessoas e as empresas a fazerem
uma transição climática mais rápida.“Não
podemos é mentir às pessoas, a dizer que as coisas são brancas, quando
elas não são brancas. Temos de ser sérios e só sendo sérios é que
podemos fazer uma transição climática que, eu próprio, gostaria que
fosse mais rápida, mas que tem o tempo que tem. Não podemos estar aqui a
obrigar ninguém”, afirmou.O debate
parlamentar acabou por se centrar em torno de um artigo da proposta que
defendia a abolição dos apoios públicos ao consumo de combustíveis
fósseis, medida que, na prática, determinaria o fim do gasóleo agrícola,
do gasóleo para as pescas e dos combustíveis sociais, que são
financiados pela região.“De uma vez por
todas, os senhores assumam que querem acabar com o gasóleo agrícola e
com o gasóleo das pescas”, apontou Marco Costa, deputado da bancada do
PSD, alertando para os riscos que a proposta do PS e do PAN teria para
aqueles dois importantes setores económicos da região.Vasco
Cordeiro, líder parlamentar socialista, garantiu que tudo não passou de
um erro e que os proponentes nunca tiveram intenção de acabar com o
apoio ao gasóleo agrícola, ao gasóleo para as pescas e ao combustível
social.“Os proponentes apresentaram uma
proposta inicial que se presta a essa interpretação, mesmo não sendo a
sua intenção, e conscientes de que se prestava a essa interpretação,
acabaram por propor a eliminação da proposta”, justificou o deputado do
PS.Pedro Pinto, da bancada do CDS, não
acreditou, no entanto, nas “desculpas” dos proponentes, relativamente a
este suposto “erro” de interpretação do artigo, acusando o PS e o PAN de
estarem a tentar “enganar” o parlamento.“Se
vossas excelências, na proposta, querem acabar com os benefícios ao
combustível, mas alegando interpretações fantasiosas, eliminam a redação
sem colocar lá nada que explique, verdadeiramente, a vossa intenção,
isso significa que os senhores estão neste parlamento a tentar enganar
alguém”, sublinhou o deputado centrista.Além
dos proponentes (PS e do PAN), apenas o BE votou a favor deste regime
de ação climática, defendendo, ainda assim, que a aplicação do diploma
tivesse o devido acompanhamento junto dos cidadãos, das escolas, das
empresas e das autarquias.“A concretização
deste regime deve ser monitorizada e poderá, eventualmente, precisar de
ver ajustados alguns aspetos à realidade específica de cada ilha. Será
preciso definir objetivos setoriais mais específicos e operacionalizar
medidas de apoio”, explicou a deputada bloquista, Vera Pires.Gustavo
Alves, deputado do PPM, entendeu que a proposta poderia gerar graves
dificuldades para vários setores da atividade, ao prever, por exemplo,
novas regras sobre os materiais que devem ser utilizados na reabilitação
urbana.“Este diploma tem alçapões
perigosíssimos para a região autónoma dos Açores. Tem diretrizes que não
foram implementadas no passado e que agora visam castrar o futuro, com
políticas fundamentalistas e disruptivas”, lamentou o parlamentar
monárquico.A proposta de regime de ação
climática foi rejeitada pelos três partidos que formam o Governo (PSD,
CDS-PP e PPM) e ainda pelo Chega, pela Iniciativa Liberal e pelo
deputado independente.