Parecer conclui que há lacuna no Estatuto dos Açores sobre incompatibilidades dos deputados
10 de jan. de 2025, 13:00
— Lusa/AO Online
O
caso foi despoletado pela substituição temporária por 10 dias, em
dezembro de 2024, do deputado único do PPM, João Mendonça, eleito pelo
Corvo, pelo médico Paulo Margato, diretor clínico e delegado de saúde na
mais pequena ilha dos Açores.A
substituição gerou, na altura, dúvidas sobre incompatibilidades e
impedimentos dos deputados, uma vez que Paulo Margato desempenhava,
simultaneamente, funções para o Serviço Regional de Saúde (SRS).“Existe
no EPARAA [Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos
Açores] uma lacuna relativamente a esta matéria”, refere agora o parecer
jurídico elaborado pela sociedade de advogados “Sérvulo &
Associados”, a que a Lusa teve acesso, acrescentando que a
“inconsistência” que se verifica entre o regime legal que define o
estatuto dos deputados e o EPARAA “deve ser resolvida”.O estatuto dos deputados à Assembleia Legislativa dos Açores proíbe que
os parlamentares “cumulem esse cargo com o de funcionário do Estado, da
região ou de outra pessoa coletiva pública”, independentemente de
desempenharem as funções políticas a tempo inteiro ou em regime de não
afetação permanente.Na altura, a comissão
de Assuntos Parlamentares, Ambiente e Desenvolvimento Sustentável
reuniu-se, em cima da hora de plenário, para decidir se o deputado do
PPM, que estava em regime de “não afetação”, poderia ou não exercer o
cargo, uma vez que não tinha rescindido o vínculo de funcionário
público.O parecer, assinado por Rui
Medeiros, professor catedrático da Faculdade de Direito da Universidade
Católica, refere que o Estatuto dos Açores, alterado em 2009, “consagra a
figura de deputado não afeto permanentemente, mas não o associa a
qualquer exceção de incompatibilidades dos deputados”.Por
essa razão, o parecer conclui que, em última análise, se o deputado
eleito escolher o regime de não afeto permanentemente, mesmo que seja
titular de um cargo de nomeação governamental, competirá sempre à
comissão de Assuntos Parlamentares decidir se autoriza ou não o
exercício do cargo de deputado.Confrontado
com as conclusões do parecer, o deputado social-democrata Flávio
Soares, presidente da comissão de Assuntos Parlamentares, Ambiente e
Desenvolvimento Sustentável, disse à Lusa que o documento ainda não foi
analisado em sede de comissão e que, até lá, não se irá pronunciar sobre
o assunto.