Paramentos indo-portugueses do século XVII oferecidos a paróquia da Horta

Hoje 15:40 — Lusa/AO Online

As três dalmáticas e uma casula foram entregues este mês por uma família benemérita ao pároco da igreja matriz da Horta, monsenhor António Saldanha Albuquerque.O sacerdote afirmou à agência Lusa que as vestes litúrgicas “têm uma longa história” de vários séculos e são de proveniência diferente.Uma dalmática é chinesa, “provavelmente uma oferta do Imperador [da China] a um padre da Companhia de Jesus ou a uma comunidade jesuíta que tenha estado em Pequim, no século XVII”.“É [de] seda, bordada a ouro, tem toda uma simbologia própria da corte imperial chinesa, como sejam os dragões, aves do paraíso e, portanto, é uma peça notável, não apenas pela sua textura, pela sua qualidade artística, mas também pela carga histórica e simbólica que tem”, explicou.As outras três peças - duas dalmáticas e uma casula -, pertenciam a um pontifical.“São produzidas de seda bordada a ouro e a prata. […] Refletem o encontro de culturas que existiu em Goa entre portugueses e indianos. É uma expressão da riqueza fantástica de troca de saberes, de artes, que se deu entre portugueses e artesãos locais”, disse.Explicou que o contacto entre as duas culturas é patente “na delicadeza do trabalho e também na qualidade dos tecidos que foram utilizados” na sua confeção.Segundo António Saldanha Albuquerque, as peças religiosas “estiveram ao culto na Índia até há relativamente poucos anos”.O sacerdote contou que “eram parte de uma coleção particular de arte indo-portuguesa” e quando conheceu a família proprietária falou dos Açores e da relação histórica com a Índia, por força da presença dos missionários açorianos.“É curioso e importante sempre recordar que os últimos dois patriarcas portugueses [naquele país] eram de origem açoriana - D. José da Costa Nunes e José Alvernaz -, e há uma ligação histórica muito forte entre os Açores e a Índia, chamada então Índia Portuguesa, que era a porta de acesso ao Oriente e a rampa de lançamento, digamos assim, dos missionários que se destinavam à Índia, a Malaca e a tantos outros territórios orientais”, referiu.Na sua opinião, a oferta das quatro peças à igreja matriz da Horta (Paróquia do Santíssimo Salvador), tem “um grande significado, não apenas pelo seu valor artístico, mas também pela memória histórica que elas contêm”.“E é curioso, esta feliz coincidência de peças de Goa voltarem, […] a esta matriz, de onde partiram, há tantos séculos atrás, tantos missionários açorianos. E, por isso, tem para nós um valor também sentimental, afetivo, muito especial”, referiu António Saldanha Albuquerque.Para a paróquia, é “um acontecimento muito importante pelo forte valor simbólico que [as peças] encerram”, mas também “como incentivo e um convite a uma releitura e [a] uma revalorização do património” existente.Ainda de acordo com o sacerdote, as quatro peças do século XVII serão expostas no futuro núcleo museológico de arte indo-portuguesa, na ilha do Faial.“Nós temos algumas peças da arte indo-portuguesa, não só no Faial como em várias outras ilhas, e o Museu Diocesano de Arte Sacra possui algumas peças de notável valor. Provavelmente, abrir um núcleo de arte sacra indo-portuguesa é um dos objetivos a que nos propomos e estas peças justificam perfeitamente esta iniciativa”, disse.Segundo a página na Internet da Diocese de Angra, as duas dalmáticas e uma casula de proveniência goesa “constituem exemplares de grande relevância histórica e artística” e “encontram-se estudadas e referidas na obra ‘História da Arte em Portugal’, dos especialistas Reynaldo dos Santos e Diogo de Macedo, o que atesta o seu reconhecido valor patrimonial”.“Com esta doação, as peças passam a integrar o património da Paróquia do Santíssimo Salvador, enriquecendo significativamente o acervo de arte sacra da ilha do Faial e da Diocese de Angra”, referiu.