Papa revela que bispo argentino enfrenta julgamento no Vaticano por abusos sexuais
29 de mai. de 2019, 08:34
— Lusa/AO Online
O Papa Francisco deu a conhecer o
desenvolvimento deste caso em entrevista à Televisa, durante a qual
precisou que, após as conclusões, há duas semanas, de uma investigação
preliminar realizada ao bispo Gustavo Zanchetta, ordenou que o caso
fosse para julgamento por um tribunal do Vaticano.Zanchetta
demitiu-se subitamente como bispo de Orã, na Argentina, em 2017 e, em
poucos meses, o Papa nomeou-o para um alto cargo na administração do
Vaticano.Através de documentos e
entrevistas, a agência Associated Press e a Tribuna de Salta, da
Argentina, noticiaram que o Vaticano estava ciente do comportamento
sexual inapropriado de Zanchetta dois anos antes de este renunciar.O
Vaticano insistiu que Zanchetta só estava com problemas de direção no
cargo à época e que a primeira imputação de abuso sexual só surgiu no
final de 2018.O Papa reconheceu na
entrevista que ele próprio questionou Zanchetta sobre as primeiras
acusações formuladas contra ele, que datavam de 2015, relacionadas com
‘selfies’ inapropriadas no seu telemóvel. O Papa explicou que deu a Zanchetta o benefício da dúvida quando este respondeu que o seu telefone tinha sido "pirateado"Um
ano depois, documentos vieram demonstrar que o reitor de seminário de
Oran estava tão preocupado com o comportamento de Zanchetta que
comunicou ao embaixador do Vaticano, em queixa formal, que eram
necessárias "medidas urgentes" para proteger os seus alunos do primeiro
ano, já que as aulas introdutórias eram realizadas na residência de
Zanchetta.Francisco aceitou a renúncia do
bispo Gustavo Zanchetta do cargo em agosto de 2017, depois de padres da
remota diocese argentina de Orã queixarem-se da sua administração
autoritária e um antigo vigário, um reitor de seminário e outro prelado
enviarem relatórios ao Vaticano alegando abusos de poder, comportamento
inadequado e assédio sexual de seminaristas adultos.A
decisão do Papa de permitir que Zanchetta, de 54 anos, renunciasse
silenciosamente e, em seguida, promovê-lo à segunda posição num dos
departamentos mais importantes do Vaticano, levantou então dúvidas se
Francisco fez vista grossa à má conduta dos seus aliados e rejeita as
alegações contra estes como ataques ideológicos.Juan
Jose Manzano, antigo vigário-geral de Orã sob a tutela de Zanchetta e
que agora é pároco, disse que foi um dos funcionários diocesanos que
alertou sobre o seu superior em 2015, enviando nomeadamente ‘selfies’
digitais ao Vaticano.Na altura da sua
renúncia, Zanchetta só teria pedido a Francisco que o deixasse sair de
Orã porque tinha relações difíceis com os seus padres e era "incapaz de
governar o clero".Zanchetta, depois de
renunciar ao comando da diocese de Orã, passou alguns meses em Espanha
até ser indicado pelo Papa para o cargo de assessor da Administração
Patrimonial da Sede Apostólica, órgão que cuida do património e das
finanças do Vaticano, em dezembro de 2017.