Papa Leão XIV encontra-se pela primeira vez com vítimas de abusos de clérigos católicos

20 de out. de 2025, 18:17 — Lusa/AO Online

O líder da Igreja Católica reuniu-se com um grupo de vítimas de abuso que pertencem à Ending Crime Abuse (ECA), uma rede que opera sobretudo nos Estados Unidos, indicou a ECA Global.Este é o primeiro encontro, pelo menos divulgado, entre Leão XIV e vítimas de abusos de clérigos católicos.A Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores apresentou a 16 de outubro o seu relatório anual, chamando a atenção para a lentidão no combate ao flagelo dos abusos em algumas dioceses de Itália.No documento, sublinhou também que a Igreja Católica tem a obrigação moral de ajudar as vítimas de abusos sexuais por clérigos católicos, defendendo reparações financeiras – para que estas possam ter acesso à terapia necessária e a qualquer outra assistência complementar para ajudar a lidar com o trauma - e sanções para os agressores, “tangíveis e proporcionais à gravidade do crime”.O relatório, relativo a 2024, antes da eleição do Papa Leão XIV, apresenta relatos de 40 vítimas em todo o mundo e dá voz às queixas sobre a forma como a Igreja lidou mal com os casos e as exigências de quem sofreu abusos. Leão XIV reconheceu que o escândalo dos abusos, que manchou gravemente a credibilidade da hierarquia católica nos Estados Unidos, em partes da Europa e na América Latina, continua a ser “uma crise” para a Igreja.Fez questão de assinalar o compromisso com a comissão criada em 2014 pelo seu antecessor, Francisco, e que aconselha a Igreja sobre as melhores práticas para impedir abusos sexuais.“A Igreja tem a obrigação moral e espiritual de curar as feridas profundas infligidas pela violência sexual perpetrada, permitida, mal gerida ou encoberta por qualquer pessoa que ocupe uma posição de autoridade na Igreja”, salientou.O documento, elaborado com as vítimas num grupo de discussão, identificou a necessidade de responsabilização dos líderes da Igreja, de informação sobre os casos e de uma verdadeira reforma das estruturas da Igreja Católica, para punir adequadamente abusadores e facilitadores e criar estratégias de prevenção eficazes.“A comissão está empenhada em dizer às vítimas e aos sobreviventes: queremos estar ao vosso lado”, disse o novo presidente da comissão, o bispo francês Thibault Verny, numa conferência de imprensa no Vaticano.Significativamente, o relatório de 2024 afirmou que a forma como a Igreja lida com os casos de abuso e o “padrão de décadas de tratamento incorreto das denúncias, incluindo o abandono, a ignorância, a vergonha, a culpabilização e a estigmatização” das vítimas, é, por si só, traumatizante. O processo está envolto em secretismo, de tal forma que as vítimas não têm qualquer direito à informação sobre o seu caso, além do resultado.As vítimas não têm qualquer recurso real além de tornarem pública a sua história, o que, já por si, é traumatizante.Apesar de a laicização ser um resultado possível para os clérigos perpetradores, a Igreja apresenta muitas vezes relutância em afastá-los completamente, aplicando com frequência sanções mais leves, como um período de retiro do ministério ativo, mesmo em casos graves de abuso sexual de menores.O relatório atribuiu boas notas aos líderes da Igreja em Malta, na Coreia do Sul e na Eslováquia, onde a maioria das dioceses, se não todas, responderam ao questionário da comissão sobre políticas e práticas de prevenção.Em contraste, em Itália, só 81 das 226 dioceses responderam ao questionário.O documento apela ainda para que a Igreja “comunique claramente as razões da demissão ou do afastamento” dos membros visados em casos de abusos sexuais.O relatório fez uma auditoria às políticas e práticas de proteção das crianças em mais de uma dúzia de países, bem como em duas ordens religiosas, num movimento laico e no gabinete do Vaticano responsável pela Igreja no mundo em desenvolvimento.Referia ainda que o gabinete missionário, responsável por 1.124 dioceses na Ásia, África, Oceânia e partes da América Latina, ou seja, um terço das dioceses da Igreja Católica, recebeu queixas de apenas um “pequeno número de casos” e só duas denúncias de bispos que encobriram a verdade.Sobre Portugal, a comissão do Vaticano recomendou à Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) que aplique um “mecanismo de auditoria robusto” ao Grupo Vita, que a CEP criou para acompanhar as situações de abuso sexual na Igreja.