Papa Francisco há seis anos a liderar uma Igreja que enfrenta a "praga" dos abusos
12 de mar. de 2019, 10:33
— Lusa/AO Online
Exatamente
no dia em que Francisco celebra mais um ano como líder dos católicos, é
lida a sentença do cardeal australiano George Pell, condenado por
pedofilia. O cardeal é o clérigo com o
cargo mais elevado de sempre no Vaticano a ser condenado por abuso
sexual de menores, tendo desempenhado funções de conselheiro económico
do papa Francisco e de ministro da Economia do Vaticano.
Francisco prometeu "tolerância zero" à pedofilia por membros do clero,
mas este é um dos maiores problemas que enfrenta no momento. No último
ano o assunto ganhou mais visibilidade com os casos que vieram a público
um pouco por todo o mundo. A dimensão do
fenómeno levou ao afastamento de cardeais e bispos, tendo o papa
convocado uma cimeira mundial de conferências episcopais para debater o
problema e encontrar soluções de combate. O
evento decorreu em fevereiro e aos 190 representantes da hierarquia
religiosa e 114 presidentes ou vice-presidentes de conferências
episcopais Francisco apresentou 21 pontos de reflexão como ponto de
partida para o debate de um problema que classificou como “uma praga”.
No final do encontro de três dias o papa assegurou que a Igreja “não se
cansará de fazer tudo o que for necessário” para levar à justiça quem
quer que tenha cometido algum tipo de abuso sexual e que “nunca tentará
encobrir nenhum caso”. O papa reafirmou
ainda que “se a Igreja descobrir um só caso de abuso – que representa já
em si mesmo uma monstruosidade – esse caso será tratado com a maior
seriedade”. Os relatos e as notícias de
abusos tiveram impacto na Igreja dos Estados Unidos, Alemanha, Chile,
Irlanda, Holanda, Austrália, França e Espanha.
Em agosto, a poucos dias de uma visita à Irlanda, o papa escreveu a
todos os católicos do mundo, condenando o crime de abuso sexual por
parte de religiosos e exigindo responsabilidades.
Na carta, Francisco pediu perdão pela dor sofrida e disse que os leigos
católicos devem envolver-se na luta para erradicar o abuso e o seu
encobrimento. Este tema foi um dos maiores desafios do papa em 2018, mas também é previsível que o seja em 2019.
Francisco está ciente disso e já afirmou publicamente que estes
escândalos estão a afastar os fiéis católicos e que a Igreja deve mudar
os seus caminhos se quiser manter as gerações futuras.
O argentino Jorge Mario Bergoglio, 82 anos, tornou-se no primeiro
pontífice oriundo da América Latina, numa escolha considerada
surpreendente, já que estava entre os cardeais mais velhos do conclave.
Sorridente, o cardeal jesuíta surgiu, a 13 de março de 2013, na varanda
da basílica de São Pedro, na Cidade do Vaticano, ao som dos gritos da
multidão "Longa vida ao papa!".
Francisco, o primeiro papa jesuíta, pediu "irmandade" entre os 1,2 mil
milhões de católicos, rezou juntamente com a multidão na praça de São
Pedro e afirmou que os cardeais "tinham ido ao fim do mundo" para o
eleger. No segundo aniversário do
pontificado, Francisco, 265.º sucessor do apóstolo Pedro, declarou ter a
sensação de que o pontificado podia ser breve, de quatro ou cinco anos,
mas desmentiu sentir-se "só e sem apoio".
"Tenho a sensação que o meu pontificado vai ser breve. Quatro ou cinco
anos. Não sei. Ou dois ou três. Dois já passaram. É uma sensação um
pouco vaga que tenho, a de que o Senhor me escolheu para uma missão
breve. Sobre isso, mantenho a possibilidade em aberto", afirmou o papa
numa longa entrevista à cadeia de televisão mexicana Televisa.
À pergunta "gosta de ser papa?", Francisco respondeu sobriamente e sem
entusiasmo excessivo: "Não me desagrada". Um ano antes tinha admitido
perante milhares de jovens e professores de escolas jesuítas que não
queria tornar-se no líder da Igreja Católica.
Na mesma entrevista à cadeia de televisão mexicana sublinhou que
sempre detestou viajar e que é uma pessoa caseira, contudo, em seis anos
já realizou dezenas de deslocações internacionais.
Portugal foi, em 2017, o 28.º país a receber uma visita do papa
Francisco. Embora sem uma relação conhecida com o Santuário de Fátima, o
papa chegou como peregrino e canonizou os pastorinhos Jacinta e
Francisco Marto. Paralelamente, vincou o
seu lado inter-religioso, tendo participado na celebração dos 500 anos
da reforma de Lutero, e avistou-se com líderes ortodoxos, judeus e
muçulmanos. Durante estes seis anos de
pontificado, Francisco procurou por em evidência variados temas sociais,
defendendo a proteção dos idosos e das crianças, o direito a um
trabalho digno, a defesa do ambiente e ainda a ajuda aos refugiados,
tornando visível a mensagem social da Igreja.
Poucos meses depois da sua eleição, quando uma parte do mundo começou a
conhecê-lo, Francisco anunciou qual seria sua primeira viagem e não foi
para nenhum centro do cristianismo, mas para Lampedusa, centro da
tragédia de migrantes no Mediterrâneo.
Acusou o Vaticano de se centrar nele próprio e esquecer-se do resto do
mundo e não fugiu dos temas em que a Igreja sempre assumiu uma postura
conservadora. Simplificou os
procedimentos para o reconhecimento da anulação dos casamentos
católicos, afirmou-se incapaz de julgar homossexuais que procuram Deus e
disse não fechar a porta ao debate sobre o fim do celibato no clero ou a
ordenação de sacerdotes do sexo feminino.
Francisco também atinge as consciências incluindo a Igreja na luta pela
proteção do meio ambiente na encíclica "Laudato si", que se tornou um
verdadeiro manifesto ambiental e social em todo o mundo.