Papa condena populismos e defende divorciados e homossexuais na sua autobiografia
14 de jan. de 2025, 11:46
— Lusa/AO Online
Na
sua autobiografia Esperança, Francisco
avisa para o risco do populismo em que vários países estão mergulhados:
“as promessas que se baseiam no medo, acima de tudo, o medo do outro são
a censura habitual dos populismos e o início das ditaduras e das
guerras. Pois para o outro, o outro és tu”.No
seu livro de mais de 350 páginas, o Papa recordou também a declaração
que assinou sobre as “bênçãos aos irregulares”, numa referência aos
divorciados ou católicos que não cumpram as exigências da doutrina,
publicada pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, em dezembro de 2023.“Abençoam‑se
as pessoas, não as relações”, porque “na Igreja, são todos convidados,
mesmo as pessoas divorciadas, mesmo as pessoas homossexuais, mesmo as
pessoas transexuais”, escreve Francisco, comentando a polémica.A
“primeira vez que um grupo de transexuais veio ao Vaticano, saíram a
chorar, comovidas porque lhes tinha dado a mão, um beijo... Com se
tivesse feito algo de excecional para elas. Mas são filhas de Deus!
Podem receber o batismo nas mesmas condições dos outros fiéis e nas
mesmas condições dos outros, podem ser aceites na função de padrinho ou
madrinha, bem como ser testemunhas de um casamento”, acrescentou o Papa,
que condenou as leis contra a homossexualidade.“São
mais de 60 os países no mundo que criminalizam homossexuais e
transexuais, uma dezena até com a pena de morte, que por vezes é
efetivamente aplicada”, mas “a homossexualidade não é um crime, é um
facto humano e a Igreja e os cristãos não podem, por isso, permanecer
indolentes diante desta injustiça criminosa”, defende.Sobre
as reformas que imprimiu na Igreja, Francisco considera que nunca
esteve sozinho no processo de decisão, minimizando a resistência em
setores da Igreja, “na maioria das vezes ligadas a um escasso
conhecimento ou a alguma forma de hipocrisia”.“Os
pecados sexuais são aqueles que a alguns causam mais rebuliço”, mas
“não são, de facto, os mais graves”, ao contrário de outros como “a
soberba, o ódio, a mentira, a fraude ou a prepotência”.“É
estranho que ninguém se preocupe com a bênção de um empresário que
explora as pessoas, e esse é um pecado gravíssimo, ou com quem polui a
casa comum, enquanto se escandaliza quando o Papa abençoa uma mulher
divorciada ou um homossexual”, comenta no livro editado pela Nascente,
da editora Penguin Random House.Já sobre
as tendências para um regresso ao tradicionalismo, como as missas em
latim, pré-Concílio Vaticano II, Francisco recorda que essa
possibilidade só será concedida em “casos particulares”, porque “não é
saudável que a liturgia se torne ideologia”.No
que respeita à guerra na Ucrânia, Francisco recorda que, no dia a
seguir à invasão da Rússia, cancelou todas as audiências e dirigiu-se
pessoalmente à embaixada russa na Santa Sé.“Era
a primeira vez que um Papa o fazia” e “foi um Papa claudicante que se
apresentou ao embaixador Avdeev para exprimir toda a preocupação”,
recorda, acrescentando: “implorei o fim dos bombardeamentos, augurei o
diálogo, propus uma mediação do Vaticano entre as partes, dizendo estar
disposto a ir a Moscovo o mais depressa possível”, mas o ministro dos
Negócios Estrangeiros iria responder depois que este “não era o
momento”.“O povo ucraniano não é apenas um
povo invadido, é um povo mártir, perseguido já nos tempos de Estaline
com um genocídio por fome, o Holodomor, que causou milhões de vítimas”
e, nestes conflitos, “os interesses imperiais, de todos os impérios, não
podem, uma vez mais, ser postos à frente das vidas de centenas de
milhares de pessoas”, acrescentou.“Atualmente,
existem 59 guerras em curso no mundo: conflitos declarados entre nações
ou grupos organizados, étnicos, sociais”, entre outros, envolvendo
quase um terço das nações, elencou o Papa.Isto
“deveria bastar para desmascarar a insensatez da guerra como
instrumento de resolução dos problemas: é apenas uma loucura que
enriquece os mercadores de morte e que os inocentes pagam”, escreveu
Francisco, que se mostra preocupado com o peso crescente das redes
sociais e dos processos de desinformação.“Aquela
democracia pela qual os nossos avós lutaram em tantas partes do mundo,
não parece gozar de ótima saúde, exposta também ela ao risco de uma
virtualização que substitui a participação ou o vazio de significado”,
com um “sistema informativo baseado nas redes sociais, nas mãos de
poderosíssimas oligarquias”.Quanto ao futuro, escreve, “a Igreja seguirá em frente, na sua história”.“Eu
sou apenas um passo” e “também o papado amadurecerá; eu espero que
amadureça, olhando também para trás, que assuma cada vez mais o papel do
primeiro milénio”, resumiu.Para o
dirigente religioso, a Igreja deve “sair da rigidez, o que não significa
cair no relativismo, mas seguir em frente” e “escapar à tentação de
controlar a fé, pois o Senhor Jesus não deve ser controlado, não precisa
de cuidadores nem de tutores”.“O Espírito é liberdade” e “a liberdade é também risco”, avisou.O
livro Esperança, escrito na primeira pessoa em colaboração com Carlos
Musso, chega hoje às livrarias para assinalar o Jubileu da Igreja
Católica, dedicado ao mesmo tema.Na obra,
Francisco conta as suas origens como Jorge Bergoglio, nascido em 1936,
filho de imigrantes italianos e o seu percurso individual, parte dele
durante a “longa e terrível noite” da ditadura argentina.