Papa alerta que a paz mundial não pode ser mantida com base no medo
12 de dez. de 2019, 13:01
— Lusa/AO Online
“Não
podemos pretender manter a estabilidade no mundo através do medo da
aniquilação, num equilíbrio muito instável, pendente sobre o abismo
nuclear e fechado dentro dos muros da indiferença, onde se tomam
decisões socioeconómicas que abrem a estrada para os dramas do descarte
do homem e da criação, em vez de nos guardarmos uns aos outros”, escreve
Francisco no documento hoje tornado público pelo Vaticano.Segundo
o Papa, “muitas vezes, a guerra começa pelo facto de não se suportar a
diversidade do outro, que fomenta o desejo de posse e a vontade de
domínio. (…) A guerra nutre-se com a perversão das relações, com as
ambições hegemónicas, os abusos de poder, com o medo do outro e a
diferença vista como obstáculo e, simultaneamente, alimenta tudo isso”.“Toda
a situação de ameaça alimenta a desconfiança e a retirada para dentro
da própria condição. Desconfiança e medo aumentam a fragilidade das
relações e o risco de violência, num círculo vicioso que nunca poderá
levar a uma relação de paz. Neste sentido, a própria dissuasão nuclear
só pode criar uma segurança ilusória”, sublinha o Papa Francisco.Com
o tema “A Paz como caminho de esperança: diálogo, reconciliação e
conversão ecológica”, a mensagem recupera a recente viagem papal ao
Japão, onde o Sumo Pontífice reconheceu ser paradoxal que o mundo “viva a
dicotomia perversa de querer defender e garantir a estabilidade e a paz
com base numa falsa segurança sustentada por uma mentalidade de medo e
desconfiança, que acaba por envenenar as relações entre os povos e
impedir a possibilidade de qualquer diálogo”.“A
paz e a estabilidade internacional são incompatíveis com qualquer
tentativa de as construir sobre o medo de mútua destruição ou sobre uma
ameaça de aniquilação total”, frisou na ocasião, o que o leva a
considerar que a memória pode ser um contributo para a paz.“Os
sobreviventes aos bombardeamentos atómicos de Hiroxima e Nagasáqui –
denominados os hibakusha – contam-se entre aqueles que, hoje, mantêm
viva a chama da consciência coletiva, testemunhando às sucessivas
gerações o horror daquilo que aconteceu em agosto de 1945 e os
sofrimentos indescritíveis que se seguiram até aos dias de hoje. Assim, o
seu testemunho aviva e preserva a memória das vítimas, para que a
consciência humana se torne cada vez mais forte contra toda a vontade de
domínio e destruição”, escreve o Papa na mensagem hoje conhecida.Para
o chefe da Igreja Católica, “a paz é um bem precioso, (…) por ela
aspira toda a humanidade”, que traz, “na memória e na carne, os sinais
das guerras e conflitos que têm vindo a suceder-se, com crescente
capacidade destruidora, afetando especialmente os mais pobres e
frágeis”.“Há nações inteiras que não
conseguem libertar-se das cadeias de exploração e corrupção que
alimentam ódios e violências. A muitos homens e mulheres, crianças e
idosos, ainda hoje se nega a dignidade, a integridade física, a
liberdade – incluindo a liberdade religiosa –, a solidariedade
comunitária, a esperança no futuro”, acrescenta.Para
Francisco, é necessário “procurar uma fraternidade real, baseada na
origem comum de Deus e vivida no diálogo e na confiança mútua”.“O
mundo não precisa de palavras vazias, mas de testemunhas convictas,
artesãos da paz abertos ao diálogo sem exclusões nem manipulações. De
facto, só se pode chegar verdadeiramente à paz quando houver um convicto
diálogo de homens e mulheres que buscam a verdade mais além das
ideologias e das diferentes opiniões”, escreve Francisco.O
Papa aponta também noutra direção, alertando que “nunca haverá paz
verdadeira”, se a Humanidade não for capaz “de construir um sistema
económico mais justo”.Também a questão
ambiental é abordada na Mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz, com
Francisco a defender uma “conversão ecológica”.“Vendo
as consequências da nossa hostilidade contra os outros, da falta de
respeito pela casa comum e da exploração abusiva dos recursos naturais –
considerados como instrumentos úteis apenas para o lucro de hoje, sem
respeito pelas comunidades locais, pelo bem comum e pela natureza –,
precisamos duma conversão ecológica”, escreve.“O
Sínodo recente sobre a Amazónia impele-nos a dirigir, de forma
renovada, o apelo em prol duma relação pacífica entre as comunidades e a
terra, entre o presente e a memória, entre as experiências e as
esperanças”, sublinha a mensagem papal.