Pandemia enviou quase metade da população ativa da UE para teletrabalho
UE/Presidência
8 de mar. de 2021, 12:29
— Lusa/AO Online
Esta nova realidade laboral,
acelerada pela pandemia, vai estar em discussão na terça-feira numa
conferência de alto nível sobre o futuro do trabalho intitulada
"Trabalho Remoto: Desafios, Riscos e Oportunidades" realizada, por via
remota, no âmbito da presidência portuguesa do Conselho da UE. Os
resultados mais recentes de uma pesquisa efetuada pelo Eurofound
(Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e de Trabalho),
com base em cerca de 90 mil inquéritos ‘online’ realizados em julho,
mostram que quase metade (48%) dos inquiridos estava em trabalho remoto,
pelo menos uma parte do tempo.Destes,
mais de um terço (34%) trabalhavam exclusivamente em casa, ou seja, mais
de um em cada três trabalhadores estava nesta situação.Os
dados contrastam com os verificados antes da pandemia, em 2018, quando
“menos de um em vinte trabalhadores” relataram trabalhar de forma remota
regularmente e “menos de um em cada dez ocasionalmente”, lê-se no
estudo, intitulado “Living, Working and Covid-19”, citando dados da
Comissão Europeia.A proporção de pessoas a trabalhar exclusivamente em casa varia, contudo, de forma significativa entre os Estados-membros.A
Bélgica é o país onde a percentagem de teletrabalhadores é mais elevada
(superior a 50%), seguindo-se Irlanda, Itália, Espanha e França, com
níveis acima dos 40%.Portugal surge em sexto lugar, com quase 40% de teletrabalhadores em casa, seguido logo de perto pela Dinamarca.Com
taxas inferiores à da média europeia estão países como a Grécia,
Finlândia ou Alemanha, com percentagens ligeiramente superiores a 20%,
enquanto na Croácia, Polónia, Eslováquia, Bulgária e Hungria apenas
cerca de um quinto dos trabalhadores estava em casa.Os
dados do Eurofound mostram ainda que do total de inquiridos que estavam
a trabalhar em casa, a maioria (74%) tinha qualificação superior.Por
atividade, o setor dos serviços foi o que registou maior incidência de
teletrabalhadores, enquanto os setores com menores níveis foram os da
‘linha da frente’, como a saúde, transportes e agricultura bem como os
afetados diretamente pelas restrições, como é o caso do comércio e
alojamento.Daqueles que trabalharam em
casa durante a crise pandémica, mais de metade (54%) já o tinha feito
anteriormente, enquanto 46% eram novos teletrabalhadores. Uma
das questões em discussão sobre o teletrabalho é a falta de limites que
pode existir entre o trabalho e a vida não profissional e, de acordo
com a pesquisa, um quinto dos teletrabalhadores (24%) relataram
trabalhar durante o seu tempo livre, enquanto apenas 6% dos que
trabalhavam nas instalações da empresa ou locais fora de casa o
admitiram.No entanto, a maioria dos
teletrabalhadores disse que deseja continuar a trabalhar a partir de
casa após a crise pandémica, pelo menos às vezes.“Parece
muito provável que a experiência de trabalhar em casa durante a crise
covid-19 levará a um crescimento do teletrabalho quando a crise
diminuir”, conclui o Eurofound, indicando que 78% dos trabalhadores
inquiridos em julho manifestaram preferência por trabalhar em casa, pelo
menos ocasionalmente, mesmo se não houvesse a pandemia e as restrições
impostas pelos governos.A principal
preferência manifestada foi a possibilidade de estar em teletrabalho
várias vezes por semana (32%), com apenas 13% a indicar que gostariam de
teletrabalhar diariamente. Para o
economista e professor da Universidade do Minho João Cerejeira, o
teletrabalho "veio para ficar, nomeadamente em modalidades mais
híbridas"."Quando se resolver a pandemia, o
recurso ao teletrabalho, que agora acelerou, é capaz de cair, mas não
há dúvida de que vai ficar a um nível muito maior do que era a tendência
anterior", vinca o economista à Lusa.João
Cerejeira considera que há mais vantagens do que desvantagens tanto
para o trabalhador como para as empresas, mas é preciso regular o regime
laboral."A legislação é muito vaga e tem
de ficar definido quem é que paga o quê, a questão da conciliação da
vida familiar e laboral, que horário cumprir, a forma de monitorizar o
trabalho ou a avaliação", defende João Cerejeira. Em
Portugal, a discussão sobre a regulação do teletrabalho deverá arrancar
após a conclusão do Livro Verde sobre o futuro do trabalho, que deveria
estar concluído até final de 2020 mas que ainda não é conhecido.Na
terça-feira, o tema estará em debate na conferência organizada pela
presidência portuguesa da UE sobre o futuro do trabalho, dinamizada pela
ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes
Godinho, e pelo secretário de Estado Adjunto do Trabalho e da Formação
Profissional, Miguel Cabrita.Na
conferência serão analisadas as mudanças no mercado de trabalho nos
últimos anos, nomeadamente as novas formas de trabalho e de organização
dos tempos de trabalho, a conciliação entre a vida profissional e
pessoal e o direito a desligar.A sessão de
abertura vai contar com a participação do primeiro-ministro, António
Costa, bem como do diretor-geral da Organização Internacional do
Trabalho (OIT), Guy Ryder, e do comissário europeu para o emprego e
direitos sociais, Nicolas Schmit.