Pandemia, crise económica e ajudas aos países pobres centram cimeira virtual do G20
19 de nov. de 2020, 12:10
— Lusa/AO Online
Organizada pela primeira
vez por um país árabe, a Arábia Saudita, e no formato inédito de
videoconferência, a cimeira vai abordar a questão das implicações da
pandemia no contexto económico e sanitário mundial – a covid-19 já
infetou quase 56 milhões de pessoas e matou mais de 1,3 milhões – e
eventuais medidas para relançar a economia no mundo.Para
o Fundo Monetário Internacional (FMI), se, por um lado, a esperança na
eficácia das vacinas está a subir, a economia, por outro, está ainda
longe de ver a luz ao fundo do túnel, uma vez que as projeções apontam
para que o Produto Interno Bruto (PIB) global deva diminuir 4,4% em
2020.Os países do G20 gastaram já cerca de
11.000 biliões de dólares para salvar a economia mundial e têm pela
frente uma “bomba-relógio”: a dívida dos países pobres, que se
confrontam com um colapso (menos 700.000 milhões de dólares, segundo a
Organização para a Cooperação e desenvolvimento Económico – OCDE) do seu
financiamento externo.A 13 deste mês, os
ministros das Finanças do G20 acertaram um “quadro comum”, que implica
pela primeira vez a China e os credores privados, para aliviar o peso da
dívida, um avanço em relação à moratória de pagamento de juros
implementada em abril, mas ainda insuficiente para as organizações
não-governamentais (ONG).“O G20 está a
manter a cabeça na areia e não responde à urgência da situação”, numa
altura em que, segundo perspetivou o Banco Mundial (BM), entre 88 e 115
milhões de pessoas deverão cair na extrema pobreza”, referiu Katherine
Tu, dirigente da Action Aid.Uma das
soluções seria usar os Direitos Especiais de Saque (SDR, em inglês) do
FMI, um instrumento de financiamento já usado durante a crise económica
de 2008. Numa entrevista recente ao
Financial Times, o ministro das Finanças saudita, Mohammed al-Jaddan,
disse estar confiante nessa solução, apesar das reservas iniciais dos
Estados Unidos, cuja participação ao mais alto nível na cimeira ainda
está em dúvida, uma vez que Donald Trump, derrotado pelo democrata Joe
Biden nas eleições presidenciais norte-americanas de 03 deste mês, não
confirmou a presença.“Isso diz muito do
seu interesse [de Trump] na cimeira do G20. Estas grandes reuniões são,
de facto, menos válidas para um programa oficial muito consensual ou
para o comunicado de imprensa final, muitas vezes muito suave, do que
para as separações entre pessoas poderosas, os laços forjados à mesa,
nos intervalos para café, nos corredores ou salas de ginástica dos
hotéis”, comentou John Kirton, diretor do Centro de Investigação do G20.No
entanto, para o também professor da Universidade de Toronto, a
“diplomacia digital” também tem as suas vantagens, ainda que apenas por
questões de logística e segurança, numa região sob grande tensão.Por
outro lado, para Camille Lons, investigadora do Instituto Internacional
de Estudos Estratégicos (IIEE), a cimeira é “uma oportunidade
claramente perdida" para a Arábia Saudita, que “quis aproveitar para
melhorar um pouco sua imagem”, maculada pelo assassínio, há dois anos,
do jornalista Jamal Khashoggi.Menos
importante a nível global, o tema dos direitos humanos na Arábia Saudita
não deixa de estar em foco, uma vez que as organizações
não-governamentais terão a oportunidade de interpelar a comunidade
internacional sobre uma questão que gera grandes críticas à atuação das
autoridades de Riad.Parentes de ativistas
presos chegaram mesmo a apelar aos líderes mundiais para boicotarem a
cimeira ou para, pelo menos, pressionarem os líderes sauditas a libertar
os presos políticos e a garantir o respeito pelos direitos humanos.A
repressão às vozes dissidentes manchou a imagem do príncipe herdeiro
Mohammad bin Salmane, que está, simultaneamente, a operar reformas para
aligeirar as leis muito conservadoras no reino muçulmano.Além
da Arábia Saudita, o G20 é integrado pela África do Sul, Alemanha,
Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coreia do Sul, Estados
Unidos, França, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Reino Unido,
Rússia e Turquia, bem como pela União Europeia (UE) e pela Espanha, como
país convidado permanentemente.