"Pandemia colocou desafios ao sistema prisional e expôs fragilidades"
Covid-19
20 de set. de 2021, 12:47
— Lusa/AO Online
Francisca
van Dunem falava, no Funchal, na sessão de abertura da 26.ª Conferência
dos Diretores dos Serviços Prisionais e de Reinserção Social do
Conselho da Europa (CE), uma organização internacional dedicada à
promoção do tratamento humano dos reclusos, condições dignas nas prisões
e garantia de sanções e medidas penais socialmente eficazes e
reabilitadoras.Segundo
a ministra, no setor da justiça, com a pandemia, surgiram desafios
muito particulares, transversais à maioria dos Estados, nomeadamente
garantir que a atividade dos tribunais não cessasse por completo,
respeitar as medidas sanitárias em vigor, proteger a população prisional
e evitar a propagação do vírus nas instalações prisionais, entre outros
objetivos.Ao
longo desta crise de saúde - observou - o CE desempenhou um papel
central na divulgação de informações e na partilha de boas práticas
entre os Estados-membros. Em
relação a Portugal, Francisca van Dunem referiu que, em 2017, foi
lançada uma estratégia nacional de requalificação e modernização dos
serviços prisionais e de reinserção social, tendo a ameaça da pandemia
agravado os desafios e forçado mudanças urgentes nas prioridades
previamente estabelecidas, levando o Ministério da Justiça "a agir
rapidamente" para prevenir a propagação do vírus e proteger a saúde dos
reclusos."A
propagação da pandemia teve um efeito direto no sistema prisional, uma
vez que um surto de covid-19 nas prisões, poderia levar à implosão do
sistema à velocidade da luz e à ocorrência de uma crise institucional e
de saúde", recordou.Assim,
em Portugal - disse a ministra - como medida preventiva, os diversos
atores sociais, políticos e legislativos perceberam a necessidade de
retirar alguns reclusos do sistema, criando espaços de quarentena para
tratar os mais necessitados.Nesse
sentido, lembrou, em abril de 2020, o parlamento aprovou uma lei sobre
amnistia para pequenas penas de prisão até dois anos, tendo a Assembleia
da República aprovado também a possibilidade de autorizações
administrativas extraordinárias de saída, para que permaneçam em casa
durante o período de pandemia.Com
estas e outras medidas, sublinhou a ministra, Portugal conseguiu
retirar cerca de dois mil reclusos do sistema prisional, protegendo a
população prisional, o sistema e "todos os que dele fazem parte".Embora
houvesse quem temesse um aumento das reincidências, Francisca van Dunem
notou que a "realidade surpreendeu (...) com um aumento quase nulo da
taxa de criminalidade" dos reclusos libertados.A
ministra apontou ainda que, em janeiro de 2021, se iniciou o plano de
vacinação para a população reclusa, que está "quase completo com uma
taxa de vacinação para funcionários prisionais de 87,5% e uma taxa de
vacinação para reclusos de 91%".Além
do processo de vacinação, indicou a ministra, no sistema prisional
português já foram realizados mais de 50 mil testes (PCR e rápidos). Em
contrapartida, frisou, o sistema prisional aumentou rapidamente a
duração das ligações telefónicas dos presos com as famílias, e
substituiu os sistemas de videoconferência.A
conferência hoje realizada subordinou-se ao tema "Ganhar avanço sobre a
pandemia" e analisou também as formas como a pandemia afetou a saúde
mental dos reclusos e do restante pessoal, bem como aspetos éticos e
organizacionais da utilização reforçada de novas tecnologias nas prisões
e pelos serviços de reinserção.O encerramento do evento ficará a cargo do secretário de Estado Adjunto e da Justiça, Mário Belo Morgado.