Países da “linha dura” convocados pela Alemanha para debater mais restrições na Europa
Migrações
16 de jul. de 2025, 12:35
— Lusa/AO Online
O
encontro, que irá decorrer na montanha Zugspitze, no estado da Baviera
(sul da Alemanha), foi convocado pelo ministro do Interior alemão,
Alexander Dobrindt, e contará com a participação dos homólogos de várias
capitais europeias e do comissário europeu para as Migrações, Magnus
Brunner.“O objetivo é, em conjunto, dar um
impulso importante a uma política migratória europeia mais rigorosa” e
apresentar uma agenda conjunta para acelerar esta questão na Europa,
explicou o anfitrião. A Alemanha, cujo
novo Governo – liderado pelo chanceler conservador Friedrich Merz - quer
estar “no centro das soluções europeias para a crise migratória”, já
tinha anunciado que queria adotar medidas de rejeição de requerentes de
asilo nas fronteiras terrestres.Esta
postura contrasta em absoluto com a que foi assumida pela antiga
chanceler e também conservadora Angela Merkel que, em 2015, deixou
entrar no país milhares de migrantes e refugiados, com a justificação de
se tratar de pessoas que enfrentavam condições desumanas no percurso
rumo à Europa. A decisão de Merkel gerou reações negativas e ampliou uma
plataforma anti-migração no país, que deu visibilidade à
extrema-direita alemã.O sucessor de Merkel
no cargo, o social-democrata Olaf Scholz, embora não tão austero como o
atual chanceler, adotou medidas mais restritivas relativamente aos
migrantes.Apesar de Scholz ter defendido
com veemência a política de acolhimento de migrantes, o seu governo
decidiu alargar os controlos das fronteiras terrestres alemãs,
assustando outros países do bloco europeu, como a Bélgica, a Polónia e a
Áustria, para quem a decisão podia prejudicar o espaço de livre
circulação Schengen.O combate à imigração é
atualmente uma prioridade assumida pelo Governo, com o ministro do
Interior a garantir que o objetivo da reunião de sexta-feira é combater
os traficantes de pessoas e os gangues criminosos, mas a assumir que a
meta final é acabar com a imigração ilegal.“Não
se trata apenas de implementar medidas nacionais, porque a reviravolta
na migração deve ser alcançada a nível europeu”, sublinhou Alexander
Dobrindt.Embora o problema da imigração
irregular seja uma queixa muito frequente nos países do sul da Europa,
como Grécia, Itália, Malta ou Espanha, a reunião vai desenrolar-se com
ministros de países mais do centro do continente.Desde
logo a França, cujo primeiro-ministro chocou, em março, as alas
esquerda e centrista ao referir que o país estava “perto de um
sentimento de submersão” pela imigração, comentários mais
característicos da extrema-direita.Desde
então, várias restrições têm sido postas em prática, como o alargamento
do período máximo de detenção de migrantes irregulares em centros de
detenção administrativa (de três meses para um ano e meio), ou a
interceção de imigrantes que tentam passar o Canal da Mancha (que liga
França e o Reino Unido), incluindo furar os barcos insufláveis com
crianças lá dentro. A Polónia foi outro dos países convidados para a reunião na Baviera.As
acusações de Varsóvia de que a Rússia e, sobretudo, a Bielorrússia,
instrumentalizam migrantes, incitando-os a irem para as fronteiras
polacas, não são novas, mas continuam mesmo depois da construção de um
muro eletrificado e da expulsão violenta de muitos cidadãos afegãos.No
início deste mês, Varsóvia reintroduziu temporariamente controlos com a
Alemanha e Lituânia, justificando a medida com o combate à imigração
ilegal, questão que já constituiu o tema central da campanha da eleição
presidencial de maio.Outro dos ministros que estará sentado à mesa em Zugspitze é Gerald Karner, que gere a pasta do Interior na Áustria.O
país tem sublinhado a Bruxelas que os seus sistemas de acolhimento de
migrantes estão sobrecarregados – devido, sobretudo aos cidadãos
provenientes da Síria e do Afeganistão -, e, em março, decidiu suspender
o programa de reagrupamento familiar dos requerentes de asilo.A
Dinamarca foi outro dos convidados para a reunião, depois de, no final
de junho, ter pedido alterações à Convenção Europeia dos Direitos
Humanos para que cada Estado possa ter margem de manobra para expulsar
imigrantes que tenham cometido crimes.Por
fim, a República Checa ocupará outro dos lugares na mesa, sendo o seu
ministro um dos maiores defensores dos polémicos acordos de
“deslocalização” de migrantes para países terceiros.Iniciados
pela Itália, estes acordos preveem que os migrantes recolhidos,
nomeadamente no Mediterrâneo, sejam levados para países fora da União
Europeia (UE) – como a Albânia – para que sejam processados os seus
pedidos de entrada. Assim, caso não tenham condições de seguir, não
cheguem sequer a alcançar território da União Europeia.Também
presente no encontro na montanha da Baviera, o executivo da UE
mostrou-se inicialmente contra estes acordos de “terceirização” do
processamento de migrantes, mas, em março, não só propôs a criação de um
sistema europeu comum para o retorno de migrantes irregulares, como
sugeriu o repatriamento para países terceiros.