“Eu
tenho a certeza que Portugal está na lista dos países [europeus] que
não estão interessados em continuar com a produção de leite. Isso eu
tenho a certeza, sendo esta a principal preocupação, afirmação e bilhete
de identidade dos Açores”, declarou António Ventura.O
secretário regional da Agricultura e do Desenvolvimento Rural falava
aos jornalistas após um encontro com o presidente da Federação Agrícola
dos Açores (FAA), Jorge Rita, na Ribeira Grande, na ilha de São Miguel.António
Ventura considerou que quando era deputado na Assembleia da República
apercebeu-se que a agricultura “era sempre um tema secundário ou
terciário que não é debatido por iniciativa do Governo [da República]”,
sendo Portugal um país que “tende a comprar alimentos e a não produzir
alimentos”.O titular da pasta da
Agricultura referiu que escreveu há cerca de um mês, sem resposta, à
ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes, para que “reúna todos os
parceiros na PARCA - Plataforma de Acompanhamento das Relações na
Cadeia, para que se possa especificamente discutir a questão do setor
leiteiro”.O responsável político
considerou que o setor do leite, no continente, “está a desaparecer”,
enquanto os Açores estão a “afirmar-se orgulhosamente no mapa mundial da
produção do leite em qualidade e quantidade”.“Esquecer
essa produção é esquecer os Açores, sendo que esta deve ser enquadrada
nas reivindicações do Estado-membro”, frisou o governante. António
Ventura anunciou que vai avançar uma “nova reconversão de eventuais
produtores de leite em carne”, como era reivindicado pela FAA.De
14 de junho a 30 julho será aberto um período de candidaturas pelo
Governo Regional para as ilhas Terceira, São Miguel e Graciosa,
“aliviando assim a pressão sobre a quantidade de leite nessas ilhas”.As candidaturas vão permitir ainda que “alguns produtores possam sair da atividade”, disse.o
secretário regional considerou que o impasse nas negociações da PAC
gera uma “grande preocupação de ver-se aqui uma nova possibilidade de
haver mais um ano de transição” entre a política agrícola atual e a que
vai entrar em vigor.Ventura afirmou que
este fator “levanta várias dúvidas, desde logo sobre o apoio dos fundos
comunitários, a nível de alterações de planeamento” e possível
“renacionalização encapotada da PAC”, o que “agrava o fosso entre os
pobres e ricos”. António Ventura
considerou uma “nova preocupação” o que se irá passar com Programa de
Opções Específicas para o Afastamento e a Insularidade nas Regiões
Ultraperiféricas (POSEI), cujo orçamento está garantido até 2022, mas
onde existe um “défice de 11 milhões de euros”.Recordou que se “impediu que houvesse o corte anunciado” por parte da proposta da Comissão Europeia para a revisão da PAC.“Havendo
mais um ano de transição, isso significa retomar as negociações, sendo
sempre uma problema porque levanta dúvidas e incertezas”, declarou, para
afirmar que “há países a quem não interessa que a PAC seja comum e que
exista um POSEI”. O presidente da FAA
congratulou-se com a nova reconversão de eventuais produtores de leite
em carne, “que não teve o impacto desejado no ano passado”, tendo
salvaguardado que cerca de 100 produtores transitaram entre ambas as
áreas.Existem nos Açores 2.343 produtores
de leite e em Portugal continental cerca de 2.000, sendo cerca de 11 mil
o número de agricultores na generalidade na região, segundo o dirigente
da FAA, havendo “muitos que são mistos [carne e leite e outras
produções]". Jorge Rita espera que “as
negociações da PAC sejam retomadas rapidamente, sabendo claramente que
não terá impacto no POSEI, que pode ser negociado paralelamente”.A
ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes, disse hoje recusar-se a
“atirar a toalha ao chão”, acrescentando que na segunda-feira recomeçam
os trabalhos para se concluir a reforma da PAC durante a presidência
portuguesa da UE.“Não atiramos a toalha ao
chão, o vigor e determinação continuam, de tal maneira que na
segunda-feira retomamos o trabalho”, disse a ministra, em conferência de
imprensa após o fracasso da tentativa de fechar um acordo sobre a nova
política agrícola comum (PAC) depois de três dias de negociações,
falhando o prazo de maio, que a presidência tinha fixado.