País não está “interessado” na produção de leite

28 de mai. de 2021, 16:23 — Lusa/AO online

“Eu tenho a certeza que Portugal está na lista dos países [europeus] que não estão interessados em continuar com a produção de leite. Isso eu tenho a certeza, sendo esta a principal preocupação, afirmação e bilhete de identidade dos Açores”, declarou António Ventura.O secretário regional da Agricultura e do Desenvolvimento Rural falava aos jornalistas após um encontro com o presidente da Federação Agrícola dos Açores (FAA), Jorge Rita, na Ribeira Grande, na ilha de São Miguel.António Ventura considerou que quando era deputado na Assembleia da República apercebeu-se que a agricultura “era sempre um tema secundário ou terciário que não é debatido por iniciativa do Governo [da República]”, sendo Portugal um país que “tende a comprar alimentos e a não produzir alimentos”.O titular da pasta da Agricultura referiu que escreveu há cerca de um mês, sem resposta, à ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes, para que “reúna todos os parceiros na PARCA - Plataforma de Acompanhamento das Relações na Cadeia, para que se possa especificamente discutir a questão do setor leiteiro”.O responsável político considerou que o setor do leite, no continente, “está a desaparecer”, enquanto os Açores estão a “afirmar-se orgulhosamente no mapa mundial da produção do leite em qualidade e quantidade”.“Esquecer essa produção é esquecer os Açores, sendo que esta deve ser enquadrada nas reivindicações do Estado-membro”, frisou o governante. António Ventura anunciou que vai avançar uma “nova reconversão de eventuais produtores de leite em carne”, como era reivindicado pela FAA.De 14 de junho a 30 julho será aberto um período de candidaturas pelo Governo Regional para as ilhas Terceira, São Miguel e Graciosa, “aliviando assim a pressão sobre a quantidade de leite nessas ilhas”.As candidaturas vão permitir ainda que “alguns produtores possam sair da atividade”, disse.o secretário regional considerou que o impasse nas negociações da PAC gera uma “grande preocupação de ver-se aqui uma nova possibilidade de haver mais um ano de transição” entre a política agrícola atual e a que vai entrar em vigor.Ventura afirmou que este fator “levanta várias dúvidas, desde logo sobre o apoio dos fundos comunitários, a nível de alterações de planeamento” e possível “renacionalização encapotada da PAC”, o que “agrava o fosso entre os pobres e ricos”. António Ventura considerou uma “nova preocupação” o que se irá passar com Programa de Opções Específicas para o Afastamento e a Insularidade nas Regiões Ultraperiféricas (POSEI), cujo orçamento está garantido até 2022, mas onde existe um “défice de 11 milhões de euros”.Recordou que se “impediu que houvesse o corte anunciado” por parte da proposta da Comissão Europeia para a revisão da PAC.“Havendo mais um ano de transição, isso significa retomar as negociações, sendo sempre uma problema porque levanta dúvidas e incertezas”, declarou, para afirmar que “há países a quem não interessa que a PAC seja comum e que exista um POSEI”. O presidente da FAA congratulou-se com a nova reconversão de eventuais produtores de leite em carne, “que não teve o impacto desejado no ano passado”, tendo salvaguardado que cerca de 100 produtores transitaram entre ambas as áreas.Existem nos Açores 2.343 produtores de leite e em Portugal continental cerca de 2.000, sendo cerca de 11 mil o número de agricultores na generalidade na região, segundo o dirigente da FAA, havendo “muitos que são mistos [carne e leite e outras produções]". Jorge Rita espera que “as negociações da PAC sejam retomadas rapidamente, sabendo claramente que não terá impacto no POSEI, que pode ser negociado paralelamente”.A ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes, disse hoje recusar-se a “atirar a toalha ao chão”, acrescentando que na segunda-feira recomeçam os trabalhos para se concluir a reforma da PAC durante a presidência portuguesa da UE.“Não atiramos a toalha ao chão, o vigor e determinação continuam, de tal maneira que na segunda-feira retomamos o trabalho”, disse a ministra, em conferência de imprensa após o fracasso da tentativa de fechar um acordo sobre a nova política agrícola comum (PAC) depois de três dias de negociações, falhando o prazo de maio, que a presidência tinha fixado.