A indignação fez-se sentir na sala de julgamento, mas foi no
exterior do Tribunal dePonta Delgada que os pais das crianças vítimas
de maus-tratos no Centro de Apoio à Criança n.º 1 da Casa do Povo de
Rabo de Peixe exteriorizaram o que sentiram com o facto de três das
quatro arguidas terem sido punidas com pena suspensa.“Nós, pais, não
podemos maltratar, que os nossos filhos são nos retirados. E elas podem
fazer o que quiserem com as crianças, não é? Não admito! Onde é que
anda a justiça de Portugal?”, afirmou a mãe de uma das crianças. Outra
encarregada de educação desprezou a indemnização ditada pelo tribunal,
considerando que “A justiça não é feita com dinheiro. Era dentro todas
elas, e seis anos para a outra ainda foi pouco”.“Maior vergonha que
eu passei na minha vida. Puxaram os cabelos ao meu filho e saíram em
liberdade”, atirou um pai, ouvido pelo Açoriano Oriental.Casa do Povo aceita decisãoOuvido
pelos jornalistas no final da leitura da sentença, o presidente da Casa
do Povo de Rabo de Peixe considerou justa a decisão do tribunal e
lamentou que tivesse demorado tanto tempo até ser feita justiça.“Eu
creio que foi feita a justiça, tenho de acreditar e continuar a
acreditar na justiça. É lamentável que nós tivéssemos de chegar aqui a
este ponto, mas, oxalá, subscrevendo integralmente as palavras da
doutora Juíza neste processo, convém que a nossa sociedade olhe cada vez
mais para as crianças como seres indefesos, como seres que merecem e
precisam de toda a proteção, porque só assim é que nós conseguimos
construir uma sociedade mais justa, não só para nós, como para os
miúdos”. Carlos Estrela abordou ainda o “chumbo” do pedido de
indemnização, concordando com a decisão do tribunal pois, nas suas
palavras, “os antigos dirigentes acabaram por ser conviventes com tudo
aquilo que se passou ali dentro”.De recordar que foi uma decisão
pessoal do presidente da instituição em colocar as câmaras no
refeitório, que forneceram imagens que acabaram por ser vitais no
desenrolar do processo. Questionado se voltaria a tomar a mesma atitude,
Carlos Estrela só lamentou ter demorado tanto tempo. “Se tivesse
noção daquilo que se passou ali dentro, com mais antecedência teria
colocado as câmaras. Ainda bem que foram colocadas, ainda bem que foi
possível captar aquelas imagens para efeitos de prova”.Advogados com poucas palavrasTanto
Álvaro Ribeiro, advogado da Casa do Povo de Rabo de Peixe, quanto
Carlos Câmara, defensor das quatro arguidas, foram parcos em palavras,
não abrindo jogo quanto a se vão avançar com um recurso da sentença.
Câmara lembrou, apenas, que tinha pedido a absolvição para três arguidas
e pena suspensa para uma.Ministério Público vai recorrer da sentençaSegundo
fonte do Ministério Público dos Açores, a sentença vai ser alvo de
recurso, mas apenas das três arguidas condenadas a pena de prisão
suspensa.