“Padre dos pobres” mantém aos 92 anos rede de apoio a indigentes nos Açores
31 de out. de 2022, 13:20
— Lusa/AO Online
Conhecido
na ilha de São Miguel como o “padre dos pobres”, monsenhor Weber
Machado, como é amistosamente designado, cedo começou a desenvolver
esforços para fazer face às necessidades básicas dos mais necessitados,
através da alimentação e criação de abrigos para habitabilidade.Promove
ações de apoio à sua recuperação das dependências e a inserção social,
com o apoio de instituições de saúde e profissionais mobilizados para
esta causa social. Durante décadas, o
padre mobilizou uma rede de apoio constituída por voluntários de
instituições bancárias, instituições particulares de solidariedade
social, organizações gastronómicas, médicos do Hospital de Ponta Delgada
e jovens, entre outros.Confecionavam a
alimentação que era providenciada aos mais favorecidos para os dotar
“pelo menos de uma refeição decente por dia”.Weber
Machado, que manifesta “grande apreensão” com o que considera ser o
atual “elevado número de indigentes”, de forma particular na ilha de São
Miguel, detém hoje uma parceira com a Casa dos Manaias, projeto da
Câmara Municipal de Ponta Delgada que visa a intervenção junto da
população em risco ou sem-abrigo no centro histórico do burgo.O espaço serve de base para o fornecimento de alimentação aos pobres, que abrange atualmente cerca de 60 pessoas.Todos
os dias da semana, com base nos voluntários mobilizados, estes
indigentes podem jantar no local ou levam as refeições, dando-se-lhes
assim um “pouco de dignidade humana”.Alguns
destes pobres que deambulam pelas ruas de Ponta Delgada encontram-se em
casas particulares, onde são recebidos pelos seus proprietários,
mediante o pagamento de uma renda com base nos valores que recebem do
Rendimento Social de Inserção. Weber
Machado refere que “não se pode exigir muito de quem vive na miséria”
para apontar que há um “grande quadro de exigências por parte das
assistentes sociais que desmotiva a recuperação dos sem-abrigo e dos
pobres”, havendo que "rever procedimentos para os recuperar
socialmente". Weber Machado vendeu o seu
apartamento para comprar 1.700 cabazes alimentares para pobres na ilha
de São Miguel, no valor aproximado de 75 mil euros, motivado pelos
impactos sociais e económicos causados pela pandemia da covid-19.“Há
hoje mais sem-abrigo, mais pessoas a necessitar de ajuda, mais pobres.
Sempre existiu pobreza, mas nunca como hoje houve possibilidades de
resolver o problema, não ao ponto de a erradicar, porque ela vai sempre
existir, mas de a atenuar significativamente. Numa sociedade que diz que
não quer deixar ninguém para trás, há muito que fazer em coerência”,
afirma Weber Machado.Considera que “as
desigualdades sociais “são hoje de uma violência enorme”, havendo “gente
a ganhar muito dinheiro e outros a viver de migalhas e de sobras”.O
sociólogo Paulo Fontes, em declarações à Lusa, em agosto, alertou que
os indigentes em Ponta Delgada são um problema “muito mais profundo do
que uma questão de polícia“, pedindo mais respostas de saúde e habitação
no concelho, que tem 70% dos sem-abrigo dos Açores.O
professor universitário sublinhou que a “perceção das pessoas que
trabalham no terreno” é que o número de pessoas em situação de
indigência está a aumentar na maior cidade açoriana.Paulo
Fontes evocou o estudo que coordenou para a Associação Novo Dia,
referente a 2020, que identificou 493 sem-abrigo nos Açores: 75,7%
estavam na ilha de São Miguel, 69,8% no concelho de Ponta Delgada.Segundo
dados da Pordata, os Açores são a segunda região do país com maior
nível da desigualdade de rendimentos (33%), apenas superados pela zona
Centro (33,3%), tendo ainda uma taxa de exclusão social (27,7%) superior
à média nacional (de 22,4%).